Surfar a onda da crise

Depois de anos consecutivos em que acreditávamos que tudo era possível, acordámos bruscamente para a realidade, sendo confrontados com tempos extremamente difíceis e exigentes e que a pandemia acelerou, trazem à memória o romance de Huxley - Admirável Mundo Novo - adaptado ao contexto (BANI) - caracterizado pela Fragilidade (Brittle), propensão a incidentes de causa diversas: pela Ansiedade o senso de urgência cada vez maior; pela Não-linearidade, o incerto é o mais certo; pela Incompreensão, face a sobrecarga de informação e a contradição das mesmas. Em termos económicos e sociais, estamos perante um enorme desafio que se coloca ao Mundo e no caso em reflexão, aos portugueses. No entanto, a história tem episódios marcantes acerca do "puro sangue lusitano" na raça e na capacidade de reacção perante situações difíceis, que nos motiva a congregar esforços, criatividade e trabalho para transformar as grandes dificuldades em oportunidades.

Conseguir a viragem implica recriar o mito do "herói" e não a imagem do subconsciente fatalista associado à fraca produtividade e ao esbanjamento, abundantemente caricaturado pelo nosso quotidiano e que explora até ao limite os aspectos negativos, descurando ou dando menos evidencia aos milhares de exemplos que ocorrem no país de casos de sucesso que contribuem para que todos possamos acreditar que podemos fazer melhor. Aliás, recordando o filósofo José Gil, na sua obra, "Portugal - o medo de existir", urge reverter os que não se consciencializam e que se conformam com a situação atual, que se revêm no pequeno, vivem no pequeno, abrigam-se e reconfortam-se no pequeno, à base de pequenos prazeres e amores, pequenas ideias e pensamentos, e diminutas mentalidades.

Perante este cenário temos duas alternativas possíveis, ou assumimos a postura "Titanic", em que perante o desastre, vulgo crise, vamos fechando comportas na esperança de que a ajuda chegue antes do barco se afundar, ou surfar a onda da crise, criando as condições para que, mesmo nos momentos mais difíceis, possamos estar em cima da prancha com vigor e lutar para ultrapassar o desafio a que nos propomos atingir. Se este é o exemplo que pretendemos ter como paradigma, para induzir um clima positivo nos País, então, todos, temos que nos equipar de forma rigorosa para o "surf", munindo-nos, sem esgotar o stock, das seguintes "pranchas":

- Enfatizar os bons exemplos que existem;

- Incentivar atitudes de "cidadania" devemos todos estar estimulados a participar em acções de solidariedade dentro e fora das organizações, abrindo novos canais de comunicação para criar um clima interno positivo que contrarie o sentimento depressivo existente;

- Incentivar a criatividade o empenho e o sentido critico de todos os trabalhadores para que sejam revistos os processos, formas de trabalhar e utilização de recursos, para conseguirmos fazer mais com menos, podendo criar sistemas de incentivos para que uma parte destes recursos seja também canalizada para quem os gerou ou para criar programas de solidariedade;

- Criar padrões éticos em que os fenómenos de corrupção, sejam repudiados por todos, criando um clima de mau estar para quem a pratica, incentivando uma mudança saudável de hábitos;

- Incentivar a participação em ações colaborativas que estimulem a criatividade e a positividade, permitindo o desenvolvimento de novas competências que contribuam para garantir a empregabilidade, mesmo no caso das organizações que passam por dificuldades;

- Criar uma rede de Mentores que de forma voluntária se coloquem ao serviço de milhares de desempregados que carecem de apoio para encontrarem trabalho ou desenvolverem o seu próprio emprego. Esta rede deveria trabalhar em estreita ligação com o Poder local, os Centros de Emprego e entidades de financiamento que dariam apoio na elaboração do projecto e acesso a microcrédito;

- Estabelecer um clima de confiança que contribua para que todos se possam empenhar no sucesso do País e apelar a sentimentos e atitudes positivas;

Com certeza haverá mais "pranchas"... mas, não esperemos pelas mais sofisticadas nem pela última moda para nos aguentarmos firmes, e ultrapassar a onda de crise mesmo que seja do tamanho do canhão da Nazaré, impulsionados pelo "jet-ski" - PRR - ninguém nos pode impedir se tivermos a ousadia de fazer as coisas certas e não apenas bem feitas!

Docente universitário

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