'Southland Tales' e os cultos por decreto

"A alma de um macaco não consegue sobreviver à travessia do limiar dimensional"
BoxerSantaros

Southland Tales estreou-se há 15 anos, e é exactamente o tipo de filme sobre o qual se costumam escrever reabilitações críticas quinze anos depois da estreia. A fórmula básica consiste em "Esta coisa que se julgava má afinal é boa". A pré-mitologia necessária à tarefa está toda presente: a "difícil" segunda obra do autor de um filme de culto (Richard Kelly, Donnie Darko); apupos em Cannes; um espectacular fiasco comercial (não conseguiu recuperar 10% do seu colossal orçamento); póstuma reputação crítica entre o ténue e o inexistente. Há também uma panóplia considerável de elementos que facilitam a aplicação de lugares-comuns da fórmula de reabilitação: elogios à escala, à ambição, e à presciência - ou pelo menos à sua relevância para o "momento presente".

O exercício é mais fácil em teoria do que na prática. Nada em Southland Tales consegue suportar qualquer escrutínio mais exigente, e a sua densa e saturada barafunda continua a ser mais apelativa quando é apenas vagamente recordada alguns meses depois de ser vista. Após o sucesso - e o tipo específico de sucesso - de Donnie Darko, o nível de autoconfiança visível no sucessor seria mais ou menos inevitável, e independentemente do que se ache sobre o produto final, há algo visceralmente gratificante na ideia de que um sistema de produção industrial pode ser ludibriado a despejar 18 milhões de euros naquilo que é essencialmente o bloco de notas de um adolescente egomaníaco. Eis um artefacto que ambiciona desesperadamente ser um filme de culto, mas em que a desmesurada ambição, ainda assim, pesa mais que o desespero; viver num mundo em que Southland Tales existe é melhor do que o oposto.

O filme conta a história de uma América alternativa: em 2008, nas vésperas de uma eleição presidencial, e num mundo em que um ataque terrorista devastou uma parte do Texas e intensificou uma série de dinâmicas políticas postas em funcionamento após o 11 de Setembro. Há um sistema de vigilância totalitário, uma permanente presença militar nas ruas, e uma Terceira Guerra Mundial de baixa frequência em vários cenários geográficos, todos mediados e sintetizados num único logótipo noticioso. Esta deriva autoritária engendra várias facções radicais, a mais relevante dos quais é o movimento Neomarxista, que divide a sua luta revolucionária entre conspirações e fogachos de performance art. Há também uma celebridade global chamada barão Von Westphalen, um cientista (e neto de uma amante de Karl Marx), que encontrou uma forma de converter o movimento das marés numa fonte de energia perpétua chamada "Fluid Karma" (que também funciona como substância intoxicante).

Tudo isto é informação prévia, um autoclismo inicial de exposição narrativa que dura cinco minutos, antes de uma promissora legenda que nos revela que aquilo que estamos a ver é a "Parte 4" de um enredo em curso. O filme propriamente dito segue os destinos de três (ou quatro) personagens: Boxer Santaros, uma estrela de cinema casada com a filha de um candidato presidencial; uma estrela pornográfica chamada Krysta Now, que diversificou o seu portfólio para a produção de talk shows, música pop e bebidas energéticas; e dois aparentes irmãos gémeos, Roland e Ronald Taverner, ex-soldados, agora polícias, ambos instrumentalizados pelos neomarxistas num plano elaborado para descarrilar o acto eleitoral e provocar uma insurgência popular de larga escala.

Todas estas intrigas paralelas vão sendo contaminados por uma gradual acumulação de bizantinices envolvendo viagens no tempo, mecânica quântica, clonagem acidental e os sempre fiáveis rasgões no space-time continuum.

Mesmo nesta versão rudimentar e recheada de exclusões, Southland Tales exibe todos os emblemas da tradição a que tenta pertencer. Qualquer pessoa familiarizada com as ficções de Pynchon e Philip K. Dick reconhece a mesma paisagem e constelação afectiva (as personagens e drogas com nomes absurdos, a prevalência de subenredos conspirativos, etc.), e as ressonâncias são por vezes sublinhadas, não com marcador, mas com tiros de canhão: a dada altura, um polícia diz a frase "Flow my tears"; o polícia tem o mesmo nome de uma personagem do romance de Dick Flow My Tears, The Policeman Said.

Esta reiteração constante da sua própria textura saturada é talvez o melhor índice do estilo de fracasso que Southland Tales encarna. Há aqui mais ideias por sequência do que a maioria dos filmes exibe numa hora inteira, mas muitas das ideias são meros apontamentos para desenvolvimento, cujo potencial evocativo depende exclusivamente do reconhecimento de objectos melhores: a patetice agressiva e berrante de Terry Gilliam, ou o delírio controlado de Kiss Me Deadly, o filme de Robert Aldrich que é usado como uma espécie de talismã. A inventividade é mais tique do que instrumento, e o constante malabarismo de homenagens e alusões pertence menos à Arte do que a uma espécie de astrologia privada, um sistema místico pessoal cujo centro parece ser toda a cultura popular absorvida por defeito por qualquer pessoa que tenha sido adolescente nos anos 90 (o elenco é um reverente altar ao kitsch dessa década, e a banda sonora inclui, como seria quase impossível não adivinhar, Pixies, Radiohead e Jane's Addiction).

Há uma ingenuidade tocante na forma (aqui sim, presciente) como Richard Kelly imagina uma plateia receptiva, disposta a ver e rever o filme imensas vezes, a fazer múltiplas triagens às suas referências obscuras, símbolos ocultos e padrões por decifrar: um conjunto de hábitos de consumo que só consolidaram em massa alguns anos depois, e que costumam ser aplicados a objectos completamente diferentes, sejam séries de TV ou o vasto universo partilhado da Marvel.

Nada em Southland Tales é esquematizado com rigor suficiente para justificar essa posteridade obsessiva. Na verdade, as suas virtudes residuais são quase todas função da sua disponibilidade para ignorar coerência temática e da confiança cega na sua própria fluência imaginativa para levar a história aos picos potenciais. Essa confiança permite um ou outro momento memorável (como o playback dos Killers feito por um Justin Timberlake sangrento e cicatrizado), e uma corrente de comédia que falha tantos alvos como os que atinge, mas acima de todo mostra os limites do "objecto de culto" como princípio motivador. Os filmes de culto parecem sempre acidentais: fugitivos de um hospício que apanham o mundo de surpresa. Southland Tales tentou criar esse efeito deliberadamente, e fechou-se a si próprio numa jaula.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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