Rui Feijó

Rui Maria Malheiro de Távora de Castro Feijó nasceu há cem anos, em Viana do Castelo, a 25 de março de 1921. Era a memória viva de uma família antiga de senhores de Entre Douro e Minho. A bela Quinta de Vilar (Lousada), que foi sua e que hoje invoca história, pedagogia e cinema e produz um belo vinho verde, simboliza a apaixonante ligação aos tempos imemoriais que marcam as mais distantes raízes portuguesas. Num poema célebre, intitulado "Bifronte", Álvaro Feijó (1916-1941), irmão de Rui, morto na juventude, e conhecido graças ao empenhado labor fraternal, definia bem o carácter de ambivalência dessa estirpe antiga: "Calcorreei a estrada, encadernado / de senhor feudal (...) / Voltei ao meu caminho, revestido / do manto de farrapos dum mendigo / desiludido! (...) // Meti na estrada do monte / e, ora senhor feudal, / ou pobrezinho que andou no mundo o seu caminho / e errou, /quer guardando no leito castelãs / ou moças aldeãs. / Nem assim sou o que sou!." O empenhamento social superou e renovou, assim, a tradição senhorial.

Fui amigo de Rui Feijó e lembro-o gostosamente. Era um democrata dos quatro costados, cultor ativo da liberdade. Acolheu na sua propriedade inúmeros clandestinos fugidos à polícia política, como Manuel Alegre, que aprontou ali a versão final da Praça da Canção. Durante a Grande Guerra, fez parte da célebre rede Shell, organização clandestina que perante a ameaça de uma invasão das potências do Eixo criou dezenas de esconderijos e de depósitos de combustível, sob a coordenação de um agente diplomático britânico, que foi denunciada e destruída. Foi dos membros mais ativos da Comissão de Socorro aos Presos Políticos.

Depois de 25 de Abril, foi durante uns meses presidente da Câmara de Lousada e depois deputado constituinte, regressando dessa patriótica missão ao norte, onde foi delegado regional da então Secretaria de Estado da Cultura. E vêm à memória esses tempos heroicos. Recordo o convívio com David Mourão-Ferreira e sua mulher Maria Pilar, também ela deputada constituinte, que há pouco nos deixou. E invoco a admiração de Rui Feijó por Antero de Quental, tendo sido o primeiro presidente do Centro de Estudos Anterianos em Vila do Conde.

Aí nos encontrámos. E estou a vê-lo numa roda de amigos, a lembrar os tempos de Coimbra e a recordar o seu jovem irmão Álvaro, que o Novo Cancioneiro celebrou. Eduardo Lourenço falava da célebre casa coimbrã de João José Cochofel, hoje Casa da Escrita: "Deslumbrava-me sobretudo a alta e sumptuosa biblioteca abarrotada de novidades da época: Faulkner, Steinbeck, Aragon, Ignazio Silone, Theodore Dreiser, Michael Gold, Sinclair Lewis, os brasileiros, centenas de outros, que essa geração descobria, alguns no original, como Rui Feijó..." Cochofel foi, de facto, a mola-real do movimento neorrealista - "amigo discreto, interlocutor necessário para tanto projeto e tanto sonho". E vinha à baila a passagem, em 1945, da revista Vértice, fundada por Raul Gomes, professor de liceu e pedagogo, para o grupo de Joaquim Namorado, Carlos de Oliveira, Feijó, Cochofel, Arquimedes Silva Santos, verdadeira personagem de Dostoievski. Isto em virtude da amortização de uma pequena dívida para com Eduardo Lourenço de dois contos de réis da mesada parental, aplicada num "fantasmagórico" número 3 da revista, que é hoje uma raridade bibliográfica. E o autor de Heterodoxia justificava: "Pareceria estranho que frequentasse essa movimentada confraria neorrealista - suponho tê-lo feito mais como amigo de Carlos de Oliveira e de Rui Feijó do que como membro integrado do grupo." Os ecos desse diálogo são para mim inesquecíveis...

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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