Reflexões sobre a derrota do Ocidente no Afeganistão (3)

"... muitas vezes a maneira de justificar um erro agrava o erro" (W. Shakespeare)

A realidade do que se passou durante 20 anos no Afeganistão traduz-se no desastre geopolítico, militar e, sobretudo, humanitário. A maior potência militar e a NATO, com militares bem treinados e equipados, não conseguiram derrotar os talibãs, porque as forças estavam configuradas para operações de imposição de paz e não para fazerem uma guerra de contrassubversão.

É de salientar que para vencer este tipo de conflitos assimétricos é essencial a conquista da população (mentes e corações), através das operações psicológicas e de informações.

Por outro lado, o exército e forças de segurança afegãs - cerca de três vezes superiores - revelaram incapacidade para conter o avanço dos talibãs, acabando por se renderem praticamente sem combater. Mas foram organizadas, equipadas, treinadas e certificadas por militares qualificados dos EUA e da NATO, tendo sido gastos milhares de milhões de dólares. Aliás, em 2009, o antigo comandante da NATO, general J. Jones, afirmava que "o exército afegão é o pilar mais bem-sucedido dos nossos esforços de reconstrução"!

Contudo, estão identificados fatores que antecipavam a implosão das forças afegãs, sendo de destacar: a falta de equilíbrio étnico; a lealdade pelos chefes tribais sobrepunha-se ao respeito pela hierarquia; a corrupção consentida; a capacidade operacional desajustada às missões e o deficiente apoio aéreo; a insuficiente sustentação; a irregularidade no pagamento dos salários; a tendência cultural para a deserção e o consumo e tráfico de drogas, em especial, na polícia.

Neste âmbito, foram utilizadas diversas fraudes, entre as quais a contratação de "soldados-fantasmas" e o contrabando de armamento. Esta degradação foi utilizada nas ações de subversão dos talibãs para potenciar a disrupção no governo afegão minado por disputas de poder.

Importa sinalizar a importância de alguns relatórios da ONU, a partir de 2008, e outros do inspetor-geral dos EUA (SIGAR), que fazem referência à incapacidade de concretizar a transição política do país, sendo evidentes, desde 2016, as razões que conduziriam ao colapso do governo, do exército e das forças de segurança. Por isso, não deixa de ser inusitado Joe Biden ter afirmado que os "afegãos estavam prontos, treinados para fazer face ao avanço dos talibãs".

Convém ainda salientar que a vasta informação existente em fontes abertas permite também reconhecer os níveis de responsabilidades ao nível político, militar, diplomático e serviços de intelligence. A este propósito a investigação relatada em documentos designados Afghan Papers (The Washington Post) revelam a forma exasperada como a administração americana e alguns comandantes militares enganaram a opinião pública e os aliados com uma versão distorcida dos acontecimentos, falsificação de dados, adulteração de estatísticas e mistificação da realidade o que prenunciava a derrota.

Nesse sentido, não é despiciendo lembrar que a promiscuidade de interesses entre a elite afegã, entidades e organizações internacionais também foi um fator importante que determinou a duração da guerra. É ainda de salientar a pressão da indústria de armamento dos EUA nos corredores do poder como referido por Sean McFate no seu último livro.

As intervenções militares não servem para impor modelos de organização da sociedade e não se afigura possível inverter a tragédia no Afeganistão. Por isso, seria prudente que os líderes políticos e militares - incluindo os de Portugal - não insistissem na utilização do mimetismo, quando se trata de assumir responsabilidades. A verdade indesmentível é que não há forma perfeita de perder uma guerra.

Capitão-de-fragata (na reforma)

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