Reflexões sobre a derrota do Ocidente no Afeganistão (2)

"É mais fácil entrar num conflito do que sair dele" (Espírito Santo, general)

A retirada dos EUA e dos seus aliados do Afeganistão materializou a derrota do Ocidente em declínio. O regresso dos talibãs ao poder permitiu a implementação do Emirado Islâmico com o retrocesso de algum progresso e a inaceitável violação dos direitos humanos. E foram criadas as condições para a recrudescência do terrorismo jihadista, que representa um desafio à segurança internacional.

O novo regime tem revelado incapacidade para administrar o país, que se encontra num iminente colapso económico e financeiro. Além disso, a tragédia social resultante da dimensão da crise humanitária está a aumentar a instabilidade que acaba por ter impacto na Europa.

A humilhante derrota afetou a credibilidade dos EUA. E é inquietante para os europeus, que perderam confiança no reforço da Aliança Atlântica proclamado por Biden. O fracasso era inevitável em resultado dos erros políticos, estratégicos, militares e comunicacionais com inadequação das missões, que nunca deviam ter passado pela tentativa de impor um modelo ocidental de organização política e da sociedade.

Acresce que a debilidade do acordo de Doha, promovido por Trump, foi explorada pelos talibãs, de forma exímia, empregando uma estratégia bem delineada com o apoio da maioria étnica (pashtun) e dos serviços secretos paquistaneses. O foco foi mantido na subversão das instituições e da população, com uma campanha comunicacional sofisticada. Foram ainda decisivas a escolha do período do ano favorável à ofensiva associada à deficiente transferência de autoridade para as forças afegãs.

A retirada dos EUA tem sido justificada pelo retraimento estratégico, tendo o Afeganistão deixado de ser vital para os seus interesses face à alteração da hierarquia das ameaças, em que a necessidade de contenção da China fez deslocar o eixo central das suas alianças para o Indo-Pacífico. A pressão da opinião pública também foi determinante.

Todavia, a forma como o processo foi conduzido gerou animosidade nos aliados com reflexos no futuro da NATO e na política de defesa europeia numa fase da dissonância transatlântica. Por um lado, a Aliança tem de dissipar as ambiguidades estratégicas e, por outro, a Europa necessita de avaliar como pode ser um ator efetivo e não apenas um parceiro dependente dos EUA. Mas a Europa está a ser testada e já se atrasou. Em Portugal a elite política revela miopia ao não discutir o que é estrategicamente decisivo!

A perda de influência do Ocidente corresponderá ao aumento da influência das potências regionais - China e Rússia com interesses divergentes -, que vão determinar o equilíbrio na sua esfera de influência e na relação de forças entre a Índia, o Irão e o Paquistão. A dimensão securitária passa pela contenção do narcotráfico e do radicalismo islâmico nas regiões transfronteiriças.

Em síntese, há quatro presidentes dos EUA que ficam ligados à impotência - da superpotência-, refletindo a incoerência da sua política externa. Na realidade, Bush pela decisão sem objetivos claros e sem estratégia; Obama pela indefinição de estratégia de saída; Trump pelo acordo absurdo com os talibãs; e Biden pela displicente decisão de retirada. Afinal a América está de regresso à América!

Em vez de estabilidade política e de segurança, o país esteve envolvido numa guerra que se foi arrastando enquanto os talibãs se reorganizavam e adquiriam capacidades para disputar uma guerra assimétrica para a qual nem o exército afegão nem a NATO estavam preparados. Ninguém saiu de cabeça erguida como algumas elites em Portugal afirmam imprudentemente!

(continua)

Capitão-de-fragata (na reforma)

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