Rebeldes fake

Daniel Silveira foi um péssimo polícia - apresentou atestados médicos falsos, recebeu 14 repreensões e duas advertências - assim como Bolsonaro foi um terrível militar. Mas um e outro sabem que no Brasil ser mau profissional nunca impediu ninguém de triunfar na política - para se ter votos basta dizer e fazer o que passa pela cabeça.

Às vésperas da eleição de 2018, em que concorria a deputado federal, Silveira decidiu quebrar ao meio uma placa de homenagem a Marielle Franco, a vereadora morta ao que tudo indica por dois ex-polícias como ele, acusando-a de defender criminosos por levantar a bandeira dos direitos humanos. Disse e fez o que lhe passava na cabeça, acabou eleito.

O deputado Silveira, entretanto, foi preso nesta semana por insultar o Supremo Tribunal Federal (STF). Em vídeo, pedia ainda o regresso do Ato Institucional Número 5 (AI-5), decreto da ditadura militar de 1968 que estabeleceu a tortura e a censura no Brasil.

Uma vez preso, qual foi a sua primeira reivindicação? Ser solto em nome da liberdade de expressão. Ou seja, um deputado que reclama o regresso do decreto que instituiu a censura evoca a liberdade de expressão para ser solto. Faz sentido? Jamais leu aqui neste espaço que o bolsonarismo faça sentido.

No fundo, ele é, como a maioria dos bolsonaristas, um "rebelde fake": clama pela ditadura ao sábado mas quer gozar os confortos da democracia ao domingo.

A rebeldia fake reflete-se também na relação do bolsonarismo com a educação: o presidente chamou os estudantes de "idiotas úteis" que "fazem tudo menos estudar" e o seu ex-ministro da educação garantiu haver plantações de cannabis nos campus. E, no entanto, o mesmo bolsonarismo que em público despreza a universidade, no íntimo venera-a.

O titular do Ambiente fingiu ser formado em Yale, um nomeado para a Educação inventou doutoramentos em Wuppertal e em Rosario e o primeiro juiz do STF do bolsonarismo forjou cursos na Corunha e em Messina. Damares Alves, sempre um capítulo à parte, intitula-se "mestre em educação, em direito constitucional e em direito de família" pela escola "da Bíblia"

Bolsonaro, entretanto, faz campanha pela cloroquina, que não tem eficácia contra a covid-19, e desdenha da vacina. No entanto, segundo a revista Época, decretou sigilo de 100 anos ao seu cartão de vacinação por conter dados, diz o Planalto, que "dizem respeito à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem" presidenciais...

E a respeitável Dona Olinda Bolsonaro, 93 anos, mãe de Jair, foi vacinada dia 12. Milhares de idosos brasileiros, entretanto, ficaram entregues à sorte (e à morte) por acreditarem que a vacina "transforma pessoas em jacaré" e "faz crescer barba às mulheres", conforme disse o presidente.

Finalmente, apesar de o sistema de eleição no Brasil - por voto eletrónico - ser o mais eficaz e seguro do mundo, Bolsonaro não acredita nele. Nos dias seguintes a ser eleito deputado oito vezes e presidente uma, porém, jamais deixou de tomar posse. E, apesar de não acreditarem em sondagens, os bolsonaristas gabam-se a cada pesquisa de opinião em que a aprovação ao governo cresce.

Os rebeldes atacam democracia e justiça, universidade e ciência, voto eletrónico e análise de dados mas depois usam-nos quando lhes dá jeito.

Ah, e abominam os defensores dos direitos humanos, como Marielle. No entanto, sentindo-se injustiçado após a detenção, a quem apelou o deputado Daniel Silveira? À Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Correspondente em São Paulo

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