Racismo sanitário

Assim mesmo, sem aspas: racismo sanitário. Se dúvidas houvera, a decisão do alegado "mundo desenvolvido" perante a descoberta, na África do Sul, de uma nova variante do vírus da covid-19 - a omicron - confirma de uma vez por todas que a Europa e os EUA mantêm a sua atitude colonial em relação aos povos africanos e às nações pobres em geral. O racismo anti-negro continua, mais de cinco séculos depois, a ser o principal obstáculo à edificação de uma autêntica "humanidade compartilhada" entre todos os homens e mulheres do planeta. Tal política, recorde-se, é uma das estruturas do sistema capitalista de desenvolvimento, desde o surgimento deste último.

Comecemos pelos políticos ocidentais. A "arrogância geopolítica" e o egoísmo com que, desde o primeiro momento, os mesmos têm lidado com a crise do novo coronavírus tentam apenas esconder - e mal - a sua incompetência para a enfrentar dentro dos seus próprios países. Os números não mentem: nesta altura do campeonato, 40% da população europeia e norte-americana recusa-se a ser vacinada contra a covid-19, perante a miopia e a cobardia das autoridades, que, em nome das liberdades, dão a milhões de indivíduos o direito de se tornarem, consciente ou inconscientemente, assassinos potenciais (a covid, insista-se, é transmissível e mata).

Mas a responsabilidade dos políticos ocidentais pelo prolongamento da atual crise sanitária vai além disso: são eles - e mais ninguém - os principais responsáveis por esse prolongamento e pelo surgimento crescente de novas variantes, pois a sua política arrogante e egoísta tem impedido a vacinação universal contra a covid-19.

De facto, todos os cientistas são unânimes em afirmar que, enquanto a maioria da população mundial não estiver vacinada, o vírus terá "tempo" para se auto-replicar. Ora, como se sabe, a Europa e os EUA, contra todos os apelos da ONU e da OMS, recusaram-se a levantar as patentes das vacinas, para que os países pobres as pudessem fabricar em condições económicas, e, não satisfeitos, açambarcaram a esmagadora maioria das vacinas, em prejuízo dos demais continentes. Neste momento, por exemplo, apenas 7% dos africanos estão vacinados.

A situação ganhou foros de crime comum. Apenas dois exemplos: o Canadá, que armazenou cinco vezes mais vacinas do que o seu número de habitantes e abandonou o Covax, mecanismo global criado para supostamente ajudar as nações pobres, teve de inutilizar recentemente milhões de doses, por terem expirado o prazo de validade; um país africano - o Botswana - adquiriu vacinas a uma grande farmacêutica mundial, pagou-as, mas não chegou a recebê-las, pois o fabricante desviou-as para outro destino. Se o mundo fosse justo, os responsáveis por esses dois casos deveriam ser presos e condenados.

Além dos políticos ocidentais, os jornalistas são igualmente responsáveis pelo clima criado após o anúncio do surgimento da nova variante do atual coronavírus. "Preguiçosos". "Idiotas". Estes os adjetivos publicáveis com que o autor sul-africano Graeme Codrington os classificou no Instagram. O reputado programa "Reliable Sources", da CNN, reconheceu, no último domingo, o falhanço da cobertura mediática sobre o assunto. Tudo o que a imprensa mundial tem dito, até agora, sobre o mesmo é especulação pura.

O facto é que a omicron não é, até onde se sabe quando escrevo este texto, uma variante "sul-africana"; pode ser originária de qualquer país. Os cientistas sul-africanos foram os primeiros a descobri-la - e a África do Sul, que já tinha descoberto a variante delta e possui um avançado sistema de combate às doenças infeciosas, foi punida, em vez de apoiada (a punição estendeu-se aos demais países da África Austral). "Mais uma vez, a ciência ficou refém da política. Uma vez mais, o medo toldou a razão. Uma vez mais, o egoísmo prevaleceu", escreveram Mia Couto e Agualusa num texto publicado no Facebook e que em poucas horas se tornou viral.
Eu vou mais longe: é racismo.


Escritor e jornalista angolano
Diretor da revista África 21

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