Quando Sally Grossman andava por ali

Em meados da década de 60, Bob Dylan era um criador em transição. Num misto de alegria experimental e risco artístico, o trovador de The Times They Are a-Changin", canção lançada no começo de 1964, abrindo o álbum homónimo, começou a distanciar-se das obrigações da tradição folk, cedendo à tentação de integrar os instrumentos do mal... A saber: as guitarras elétricas.

O documentário de D. A. Pennepaker Dont Look Back (assim mesmo: com a grafia errada, em vez de "don"t") ficou na história e na mitologia como testemunho dessa convulsão; entre nós estreou-se como Eu Sou Bob Dylan. Lançado em 1967, tem como matéria principal a digressão inglesa de Dylan em 1965, precisamente quando a eletricidade começou a aparecer nas suas canções, indignando especialistas e leigos, unidos na mesma cruzada purificadora contra a perversa sonoridade de Subterranean Homesick Blues ou Maggie"s Farm.

Tais canções pertenciam ao álbum Bringing It All Back Home, posto à venda a 22 de março de 1965. Era o quinto registo de estúdio de Dylan (à beira de completar 24 anos), com o tempo reconhecido e celebrado como obra genuinamente revolucionária - de acordo com as palavras de Stephen Thomas Erlewine, editor do site AllMusic, Dylan "eclipsava" as convenções da folk para "reescrever as regras do rock".

Bringing It All Back Home regressou à atualidade através de uma notícia que nos relança no insólito e fascinante poder das imagens: Sally Grossman, a mulher que acompanha Dylan na capa do disco, faleceu a 11 de março - contava 81 anos.

Era um tempo em que a música, da mais convencional à mais inovadora, não existia em ficheiros conservados num éter sem imagens ou, pelo menos, dispensando a sua pontuação informativa. Mesmo a vulgarização do CD, consumada na década de 80, não era sequer uma miragem. As capas dos discos de vinil de longa duração (LP) possuíam, assim, um valor icónico que, com maior ou menor justificação, podia suscitar as mais contrastadas interpretações - momento emblemático dessa energia figurativa ocorreria dois anos mais tarde, com a lendária capa de Sgt. Pepper"s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles.

Da autoria de Dan Kramer, a fotografia de Bringing It All Back Home foi obtida na casa de Albert Grossman, empresário de Dylan, na cidadezinha de Woodstock, na zona norte do Estado de Nova Iorque. Sally (apelido de família: Buehler) e Albert tinham casado em 1964, estando Dylan a passar uma temporada em sua casa, precisamente a trabalhar nos temas do álbum. Rezam as crónicas que foi por essa altura que Sally lhe apresentou a sua amiga Sara Lownds, a primeira mulher de Dylan.

Profissionalmente, Sally Grossman foi uma dedicada gestora da herança do marido, falecido em 1986, vítima de ataque cardíaco durante uma viagem de avião para a Europa. Por essa altura, ele trocara a sua atividade de empresário (Janis Joplin, The Band, Peter, Paul and Mary foram outros artistas que representou) pela gestão do seu estúdio Bearsville (que acolheria nomes como Jeff Buckley, R.E.M. ou Metallica), depois também uma etiqueta discográfica. Em 1989, Sally conseguiu mesmo concretizar o sonho do marido de uma sala de espetáculos, o Bearsville Theatre, em Woodstock.

A capa suscitou algumas delirantes especulações. Kramer deu conta que várias pessoas lhe escreveram a perguntar se não se tratava de uma montagem, com o próprio Dylan, em fundo, em pose de drag queen... O que não deixa de ser sintoma de um vício que, desgraçadamente, ganhou força nos nossos dias hipersaturados de (des)informação: não poucas vezes, as imagens deixaram de ser olhadas como factos singulares, sendo forçadas a possuir algum suplemento "simbólico".

Como Kramer justamente recordou, a presença de Sally é vital para o impacto da imagem, porque "não sabemos quem é", instalando um "mistério" que vai permanecer como tal. Entre as várias fotografias que fez durante a sessão, escolheu aquela em que os três seres vivos estão a olhar para a câmara (incluindo o gato ao colo de Dylan). Porque é que Sally fez pose com Dylan? "Porque eu andava por ali e o Bob me pediu", disse ela numa entrevista de 1996 à revista Mojo. E o vestido encarnado? "Acho que não voltei a usá-lo."

Jornalista

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