Prioridade para a saúde mental  

Há muito que sabíamos que a saúde mental era o grande tema da área da saúde no futuro dos países mais desenvolvidos. Resolvidos problemas básicos, intimamente ligados à higiene e condições de vida das pessoas, controladas doenças que deram lugar a grandes mortalidades no século XX, transformadas progressivamente doenças terríveis como o HIV ou o cancro em doenças crónicas, aparece o grande domínio da saúde mental. Domínio ligado também ao envelhecimento progressivo da população (de que o imperdível filme O Pai é um testemunho extraordinário).

A pandemia veio pôr em causa as nossas seguranças. A lição número um é que nada está garantido. Mas para além disso evidenciou fragilidades muito grandes no domínio da doença mental. Na comparação com outros países, nomeadamente no contexto europeu, Portugal já aparecia numa posição difícil, com grau elevado de incidência da doença mental, nomeadamente da depressão, de que o uso excessivo de antidepressivos é um sinal inequívoco. A resposta à pandemia veio agravar este quadro, não só piorando a situação de quem já estava em situação de doença, mas também empurrando muitas pessoas para situações de grande fragilidade e dificuldade.

A incidência revela-se muito transversal e diversificada. E atrevo-me a dizer que as marcas da vivência anormal da pandemia, que nos privou daquilo que é mais co-natural e identitário das pessoas - a socialização -, vão acompanhar-nos por muitas décadas e exigir respostas mais adequadas e robustas às crianças que não viveram uma escola normal, aos adolescentes que não puderam conviver uns com os outros como seria natural na sua idade - e veja-se o aumento brutal de fenómenos de distúrbios alimentares como a anorexia -, aos jovens adultos que perderam uma boa parte da sua vivência académica e àqueles que entraram em estágios e no mercado de trabalho em teletrabalho, aos jovens pais em teletrabalho a passar o limite das suas forças (de que o caso da criança de dois anos esquecida no carro é um exemplo dramático), às famílias que melhor ou pior tiveram de reinventar formas de convívio, aos mais idosos privados da presença e do carinho dos familiares, etc. etc.

Para nos reerguermos e contruirmos um futuro coletivo mais saudável precisamos de aplicar esforços a compreender melhor os efeitos atuais e potenciais do que nos aconteceu (e ainda está a acontecer). E precisamos de nos dotar de mecanismos para ajudar a recuperar ou a manter a saúde mental, encontrando também formas mais eficazes de deteção de sinais de doença mental e intervenção precoce. Neste momento, este é mais um dos casos de injustiça gritante que divide a sociedade portuguesa entre os que podem pagar consultas de psicologia e de psiquiatria e os que ficam à espera indefinidamente por um apoio muitas vezes tardio e irregular. Sem um sistema abrangente de apoio de psicologia e psiquiatria, acessível a todos no tempo e no modo, estaremos a somar problemas a mais problemas. Esta deve ser assumida como uma das grandes prioridades atuais do nosso sistema nacional de saúde.

Em relação ao objetivo, não será difícil um acordo seja no contexto político seja na sociedade em geral. Até porque a pandemia trouxe novos quadros e exemplos próximos que permitiram tomar um ganho de consciência mais generalizado. Já a forma como se pode organizar a resposta deve ser objeto de debate e de escolha. Aqui, como noutros setores, penso que teremos melhores soluções se contarmos com todos os setores.

Professora da Nova School of Law. Coordenadora do Mestrado em Direito e Economia do Mar

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