Primeiro muito devagar, e depois subitamente

No segundo episódio da segunda temporada de Succession, dois herdeiros da família Roy, Roman e Kendall, percorrem a redacção do Vaulter, um jornal digital recém-adquirido pelo seu império de comunicação. Um dos irmãos olha à sua volta - observando dezenas de corpos debruçados sobre secretárias, inclinados perante monitores - e comenta em surdina com o outro: "tantos falsos jornalistas, todos a fingir que trabalham". O objectivo da visita é avaliar números - tráfego, visitas, cliques diários - e decidir a viabilidade do site. Mas na verdade a decisão já estava tomada, e o episódio emoldura-a entre dois discursos. No primeiro, Kendall oferece à redacção um ramalhete de banalidades motivacionais: garantias de que são todos "uma família" e de que o Vaulter é o "futuro do grupo", promessas de aumentos salariais e receptividade a "novas ideias", etc. O propósito é ganhar tempo, retardando um processo sindical em curso, e permitindo que uma equipa a trabalhar em segredo nos bastidores consiga assumir controlo dos arquivos do site. O segundo discurso, mais breve, limita-se a informar centenas de pessoas que acabaram de perder o emprego, e que têm 15 minutos para recolher os seus pertences e sair do escritório. O site continuará a existir com o mesmo nome num estado vegetativo, com apenas cinco estagiários sob a supervisão de um único editor - e a espremer valor residual dos arquivos e da marca enquanto for possível.

Através de manchetes fugidias vistas em ecrãs (Is Every Taylor Swift Lyric Secretly Marxist?) a série estabelece o Vaulter como um arquétipo familiar na paisagem online: a fábrica de conteúdos digitais (concebidos menos para serem lidos do que para gerarem partilhas) que vai conseguindo flutuar acima da linha de água à custa de um generoso investimento inicial, de manipulações algorítmicas, e de muitos dados massajados. Ao condensar este ciclo de vida num episódio de uma hora, a série relega o estado semi-comatoso para fora do ecrã, e inverte o modo mais comum como um "jornal", no sentido mais abrangente do termo, costuma morrer, que é mais o menos o modo como Hemingway descreveu a falência. No romance O Sol Nasce Sempre, alguém pergunta a um temperamental veterano de guerra escocês chamado Mike Cambpell como perdeu todo o seu dinheiro. "De duas maneiras", responde. "Primeiro muito devagar, e depois subitamente".

Os primeiros sintomas costumam afligir a indústria inteira, o que cria a falsa segurança de um inexorável (e colectivo) "processo" de transformação. A primeira coisa que desaparece é aquilo que custa mais (em tempo ou em dinheiro): investigações longas, reportagens no estrangeiro, despesas de viagem, etc. Depois, todos os atalhos se vão tornando mais curtos. Copy desks desaparecem. As redacções começam a encolher por ordem cronológica: veteranos aceitam rescisões amigáveis e as suas funções são redistribuídas pelas várias castas temporárias - estagiários, colaboradores, freelancers. Reuniões estratégicas começam a ser mais frequentes. A ordem das secções é reconfigurada como um baralho de cartas. Reinvenções são anunciadas. Suplementos são rebaptizados. Mudanças de tom são sugeridas: o jornal deve tornar-se mais ligeiro, mais profundo, mais especializado, mais generalista, mais local, mais global. Como um paciente terminal, o jornal começa a ser mais vulnerável a charlatães e curas milagrosas. Várias estratégias são adoptadas, na esperança de que alguma pegue (paywalls, doações voluntárias, fundações, parcerias) Quando a calamidade seguinte acontece (uma crise financeira, uma pandemia) um ou outro lay-off costuma preceder o inevitável despedimento colectivo, noticiado provavelmente não em números mas em fracções ("um quarto dos funcionários", "um terço da redacção"). Não é suficiente. As "dificuldades de tesouraria" tornam-se crónicas. As pressões produtivas aumentam em proporção inversa à disponibilidade de recursos: perto do fim, é esperado que uma dúzia de pessoas consigam fazer melhor um trabalho que antes era feito por meia centena. São precisos mais cortes. E aquilo que acontece muito devagar pode continuar a acontecer muito devagar durante muito, muito tempo.

O modelo de produção de notícias extremamente lucrativo que durou até aos anos 80 pode ser hoje identificado como uma anomalia, resultado de um conjunto intrincado de incentivos historicamente contingentes. Os jornais prosperaram enquanto puderam ser essencialmente financiados por publicidade - enquanto foram o mais eficaz elo de ligação entre anunciantes e consumidores. A internet dinamitou este monopólio informal. Muitos anunciantes migraram para motores de busca ou plataformas de agregação. Relógios de luxo e suplementos de dieta perceberam que é mais eficiente esbanjar orçamentos de marketing no Facebook ou no Instagram do que sepultá-los entre reportagens parlamentares.

Mas o modelo específico do jornal "generalista" também permitia o subsídio invisível do consumo em massa, pois fornecia algo para todos. Um leitor podia ignorar todas as notícias nacionais e internacionais, e comprar o jornal apenas para saber os resultados desportivos, ou consultar a programação de TV, ou espreitar os anúncios de emprego, ou resolver os problemas de xadrez, ou ler a banda desenhada. Os leitores que compravam o jornal por estarem interessados em x financiavam indirectamente os leitores que compravam o jornal por estarem interessados em y, e vice-versa. Aquilo que custava mais dinheiro (correspondentes estrangeiros, jornalismo de investigação) podia ser financiado por quem não lia. Colunas de opinião podiam ser financiadas por pessoas que detestavam o que o colunista dizia. A internet não se limitou a criar a ilusão de que tudo isto era, ou podia ser, gratuito: também fragmentou o conteúdo em tantos nichos que nenhum consumidor precisa de financiar outros interesses que não os seus.

A paisagem mediática de hoje parece-se muito mais com a do séc. XIX do que com o período de prosperidade pós-guerra em que se consolidaram não só a maioria das normas como até o entendimento que ainda hoje temos do jornalismo. Um desses recidivismos é a figura do magnata da imprensa, o mecenas cujo estatuto vem de estar disposto a gastar dinheiro que mais ninguém tem para fazer algo que talvez já não seja possível fazer: "salvar" o jornalismo, não apenas como prática, mas como prática comercialmente lucrativa. Um por um, mais tarde ou mais cedo, todos acabam por perceber que mesmo que um conjunto de golpes de sorte e práticas brilhantes os tenham tornado ricos, esses golpes e práticas não são transferíveis para todas as áreas, nem capazes de erradicar décadas de hábitos complacentes, nem de alcançar o milagre alquímico de fazer com pouco dinheiro um produto que custa muito dinheiro a fazer. Excepto aqueles que decidiram financiar jornais por outro propósito que não o lucro (influência política, vaidade pessoal, etc), todos vão perder o interesse, como perderam o interesse noutras indústrias em declínio. A diferença de base é pouco mais que retórica: os clubes de vídeo e os amoladores de facas nunca conseguiram convencer-se a si próprios de que eram baluartes indispensáveis da democracia.

Primeiro muito devagar, e depois subitamente. Tal como tudo o resto, também as eutanásias dos jornais serão mediadas pelos filtros existentes - e serenamente inseridas nas várias escaramuças culturais em curso. Alguns óbitos serão aplaudidos outros lamentados (em função de serem "de esquerda" ou "de direita", do Benfica ou do Sporting, etc), mas a maioria será ignorada. Alguns chegarão ao fim como o Vaulter: com uma mão cheia de estagiários e um último editor, que vai aproveitar o seu derradeiro espaço de opinião para explicar solenemente que o "tribalismo" das "redes sociais" e a "sanha persecutória" da "inquisição digital" representam um problema gravíssimo, uma ameaça existencial à liberdade de expressão. A coluna será publicada assim, não ironicamente, mas com total seriedade, antes de alguém apagar a luz.


Escreve de acordo com a antiga ortografia

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