Portugal vestiu a camisola

A camisola poveira tem mais mais de 150 anos e está, há meses, em processo de certificação. Feita de lã branca da serra da Estrela e decorada a ponto de cruz a preto e vermelho, com vários motivos de inspiração minhota - remos, boias, caranguejos e até as armas da coroa -, é uma peça bem expressiva da nossa identidade. Ora, Tory Burch (mais comercial que criadora) copiou-a, erguendo assim um imenso amor à pátria, adicionalmente espicaçado pelo facto de identificar a indumentária como mexicana, vendê-la por 700 euros, imitar as peças do Bordallo e ainda posicionar a sua marca como politicamente correta, socialmente responsável ou inclusiva (marketing muito em voga).

Depois de a imprensa e as redes sociais lusitanas imolarem-se por combustão, Tory Burch tweetou um pedido de desculpas. Mas, no mundo da moda, indústria que move muitos milhões, também há patentes, exclusivos e plágios que fazem rolar muito dólar. Casos como a sola vermelha de Louboutin ou a acusação de imitação de que a própria estilista já foi alvo - ou a que moveu contra Youngran Kim em 2013, vencendo em tribunal e ganhando uma avantajada indemnização - são exemplos. Ou seja, mesmo num universo que não compara à história de uma nação nem sequer à arte, vence a ideia de propriedade cultural ou intelectual, cuja violação e exploração com vista à obtenção de alguma mais-valia deve ser ressarcida com uma compensação. Portanto, um pedido de desculpas não chega. É condição necessária mas não suficiente.

Alto lá! Eis que assim e de repente, por causa de uma camisola, Portugal descobriu que sentimento é esse de se ser privado dos seus símbolos e recursos. A esquerda parte da luta e universalidade, chamando-lhe "apropriação cultural" (sublinhando a expropriação e muito embora a Poveira, como outros ícones lusos, tenha sido reabilitada pelo fascismo). A direita prefere o ponto de vista interno e designa-o de "orgulho nacional" (enfatizando a posse e ainda que a Poveira seja em si mesma resultado de muita miscigenação). Adiante: é esta aglutinadora sensação coletiva associada ao roubo de um padrão de um pullover que permite facilmente imaginar o que experimenta um povo ao ser esbulhado durante séculos. Realmente, para aprender é preciso emoção ou, como dizia Leonardo da Vinci, todo o conhecimento começa com um sentimento. É aqui que mora a possibilidade de todos (da esquerda à direita, conservadores, liberais e até anarcas) empatizarem então com a dor e com a revolta pela injustiça e saque que muitos países vivem depois de um longo lastro de pilhagens. Nem de propósito, enquanto Tory Burch punha à venda a sua malha contrafeita, o Conselho Europeu fazia uma recomendação ao nosso país: confronte-se com o seu passado colonial, disse.

E o tal pedido de desculpas? Basta? Não, não chega. Como prova a discussão sobre a linda Poveira, faz sentido discutir devoluções patrimoniais, restituições de objectos apropriados durante os períodos de escravatura e ocupação, indemnizações, como já foram e vão acontecendo por todo o mundo. E, como o Governo português até reconheceu, avançando com uma queixa judicial. Certo? Ou será que algumas pessoas acham mesmo que só é válido reclamar uma "apropriação abusiva" sendo-se branco e se os objectos forem agasalhos e malgas?

Psicóloga clínica. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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