Portimão/Faro-Tânger ou Portimão/Faro-Casablanca? A escolha é sua!

A Câmara de Comércio e Indústria Luso-Marroquina (CCILM), associada à Embaixada de Marrocos em Portugal, procede actualmente a um levantamento público sobre o interesse do tecido empresarial português e dos particulares também, sobre a criação de uma ligação marítima entre ambos os países, criando-se assim uma alternativa ibérica ao existente exclusivo espanhol. O mais provável e lógico é que esta ligação se faça entre o Algarve e Tânger, ficando apenas a dúvida entre Faro e Portimão, enquanto ponto de partida e chegada. Acedendo ao sítio da CCILM, poderá solicitar via mail o respectivo formulário e dar o seu contributo.

Portimão apresenta-se como melhor candidata face a Faro, já que é daí também que é feita uma ligação marítima para a Madeira, tendo este porto pretensões a abrir-se ao mercado dos cruzeiros. Há uma ambição da autarquia local em tornar a cidade um porto comercial de grandes dimensões e com uma variedade de ligações marítimas incluindo também Espanha, dando assim uma dimensão mediterrânica à região e ao país, como nunca tivemos.

Quanto ao interesse marroquino nesta nova rota, parece-me tratar-se de uma inevitável consequência da actual crise diplomática com Espanha, em consequência do episódio de Ceuta, em que 8 mil marroquinos galgaram a fronteira deste enclave a pé e a nado. Por outro lado, uma valorização do parceiro ibérico que mais aumentou as exportações para a África não tradicional, desde que a troika nos obrigou a um "confinamento económico". A seguir aos PALOP, Marrocos representa para o "exportador português" o principal mercado em África.
O turista português, mercado nada negligenciável, passará também a ter o exótico a cinco horas de distância. Em rigor, a ligação Portimão-Tânger já existiu, mas em momento económico e político menos propício, perdendo interesse e até memória. Nem o Google se lembra disso!

Estabelecendo-se esta ligação, naturalmente que novos desafios surgirão, sendo o securitário certamente o principal. Mas este também levanta nova oportunidade. Tendo em perspectiva vistas mais largas, não nos podemos esquecer de que a Base Aérea de Beja foi pensada e sugerida pelo general Kaúlza de Arriaga, tendo em vista os perigos do fundamentalismo islâmico, que o próprio antecipara na década de 1960. Ora 60 anos depois, Beja poderá muito bem cumprir o seu desígnio original num pacote que conjugará ferry boat e potencial rota migratória, e alavancar um "elefante branco" que não sobreviverá apenas, e para já, às custas do maior avião do mundo!

Não esquecer também que as nossas ambições de expansão da plataforma continental (marítima) colidem em alguns pontos com as ambições marroquinas e esta ligação poderá representar mais um ponto de entendimento entre ambos os países, catalisador de boas vontades para voos mais altos e mergulhos mais profundos. Desta forma, esta oportunidade poderá significar uma consolidação atlântica e uma abertura para perspectivas mediterrânicas, uma responsabilidade por assumir e um vazio ainda por preencher.

Politólogo/arabista. www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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