Perguntas frequentes sobre o Euro 2020 (1.ª semana)

Qual foi o melhor golo até agora?

Para quem prefere golos individuais, a escolha mais consensual será o balão atmosférico lançado pelo checo Patric Schick a 49 metros da baliza escocesa. Para quem prefere jogadas colectivas, talvez o terceiro golo de Portugal contra a Hungria, que teve ainda uma curiosa consequência: a multiplicação (em várias plataformas multimédia) de repetições da jogada que precedeu o golo, acompanhada da ofegante contabilização do número total de passes (Trinta! Espectáculo!) - algo que já não nos acontecia desde os tempos de glória do Euro-96 e do Euro-2000, quando a designação "o Brasil da Europa" e outras pitorescas simpatias eram depositadas aos nossos ineficazes pés. Bons tempos esses, os de 96 e 2000; bons tempos, inclusive, os de Domingo passado.

A resposta estética e eticamente mais correcta, no entanto, é o contra-ataque ontem finalizado em Munique, por um cidadão de 36 anos de idade, um acontecimento entretanto e infelizmente subalternizado por outros acontecimentos.

Por falar nisso, o que é que anda a acontecer aos nossos estereótipos futebolísticos?

Muita coisa, mas não tanta como às vezes parece. Por muito que custe a pessoas que cresceram (e formataram os seus mais úteis e fiáveis preconceitos) nas décadas de 80 e 90, a Itália de agora é de facto bastante diferente da Itália a que se estava habituado, mas a invalidação de tudo quanto é estereótipo talvez seja prematura. E por muito que o Euro-2016 tenha ameaçado dinamitar paradigmas, a ideia de que (por exemplo) Portugal defende tão implacavelmente bem que agora somos a "nova Itália", ou a ideia de que (por exemplo) a Alemanha é agora uma selecção tragicamente inócua e ineficaz, nunca pareceram muito plausíveis, nem mesmo anteontem.

Com o que é que Joachim Low, treinador da selecção que nos aviou quatro batatas, se parece?

Com um professor de Físico-Química que também é secretamente um lobisomem, e que foi suspenso preventivamente do seu liceu até ser concluído um inquérito disciplinar sobre vagas e misteriosas alegações.

Mudando de assunto, porque é que é tão satisfatório ver a Inglaterra a jogar mal?

Talvez não seja preciso mudar totalmente de assunto, porque também aqui parte da resposta reside em estereótipos formados ao longo de décadas, nomeadamente nas décadas em que a cultura futebolística inglesa se especializou numa síntese entre arrogância imperial e uma notável capacidade para a auto-aversão - tudo misturado em público por um acompanhamento mediático para o qual juventude, talento e dinheiro nunca oferecem grande protecção. A cobertura das sucessivas "gerações de ouro" inglesas tratou-as sempre como protagonistas de uma escabrosa telenovela feita de desastres de automóvel e fotografias clandestinas - e preventivamente justificada pela extrapolação optimista de exibições nos clubes que nunca foram reproduzidas na selecção.

Há uma propensão de todos os indiscutíveis talentos que têm o azar de vir ao mundo com passaporte inglês para absorverem estas danificadas mitologias, de maneira a que chegam sempre a estas ocasiões transportando nos pés a memória epigenética não só de calamidades anteriores como até de um modo muito concreto de jogar horrivelmente. A sensação que se tem é de que já estão a imaginar as manchetes do dia seguinte ainda antes do apito final.

Os últimos segundos do Inglaterra-Escócia (uma calamidade estética do primeiro ao último minuto, como se esperava) consistiram no actual depositário inglês de "expectativas de criatividade" (Jack Grealish, pobre coitado) a receber a bola na quina da área, e a avançar na direcção dos defesas escoceses, porque é isso que fazem os jogadores criativos: avançam com a bola na direcção dos adversários até que coisas aconteçam. Que coisas aconteceram nesta ocasião? Absolutamente nenhumas, pois os defesas escoceses optaram pela abordagem revolucionária de não se mexerem do mesmo sítio. Confuso pela ausência de movimento, Grealish hesitou uns momentos, voltou para trás, e atrasou a bola a um colega - que a devolveu exactamente para o mesmo sítio. Durante estes 14 segundos, nenhum jogador em campo além de Grealish se moveu mais do que 3 centímetros em qualquer direcção.

Foi esplêndido e foi também, até agora, o momento mais cómico da competição a não envolver o corredor direito português.

A França continua a ser a favorita?

Mais interessante do que esta pergunta é saber se a resposta deve ou não ser calibrada em função do que aconteceu nos seus dois jogos até agora, ou seja: saber se a França foi uma equipa diferente em cada um deles, ou se se limitou a navegar as contingências que lhe apareceram, e a diferença foi mais delas do que sua. O instinto de Deschamps continua a ser o mesmo de 2018: começar cada jogo com sete trincos (quatro dos quais jogam na defesa, um dos quais joga na baliza, e etc.), e três fadas-madrinhas cuja função é criar feitiços que resolvam os problemas. E o problema com que se deparam também continua o mesmo: como marcar o golo acidental que lhes permita jogar o resto do jogo com espaço livre suficiente para ameaçar constantemente marcar muitos outros.

Então e o Pogba?

Fez uma das melhores exibições individuais da prova contra a Alemanha e depois passeou-se semi-anonimamente contra a Hungria, o que é extremamente característico - não apenas de si próprio enquanto indivíduo, mas também como representante de uma tipologia específica de jogador, que é a tipologia para a qual os grandes torneios de selecções foram inventados.

Pogba é portador de vocabulário técnico quase ilimitado, mas zelosamente protegido, menos um instrumento para comunicar do que um veículo de auto-expressão. Sempre houve um elemento de impassibilidade nos seus maneirismos mais exibicionistas: uma presença berrante, mas estranhamente diáfana em campo, na qual os sinais visíveis de todas as dinâmicas de pressão associadas ao conceito de "jogador-de-futebol-a-jogar-futebol" se destacavam pela ausência, como se estivesse empenhado numa espécie de solidão performativa - em público.

Um jogador que reserva a maior dose do seu talento para o acto intransitivo - a jogada auto-contida que nada inicia, nada conclui e nada modifica a não ser a sua brilhante auto-suficiência - é um jogador de Europeus e Mundiais, não é para andar a gastar-se em premier leagues e outras banalidades.

Vai ser interessantíssimo acompanhar o seu próximo jogo, por todos os motivos óbvios, e depois mais alguns.

Além desse, há mais jogadores que encarnem essa tal representação platónica do jogador que se deve procurar nestas competições?

Há mais uns quantos, muitos deles na Ucrânia, um repositório da lendária displicência talentosa que muitas selecções de Leste (Roménias, Croácias, Bulgárias), costumavam trazer ao mundo. Malinovski e Zinchenko são demasiado competentes e possuem demasiadas bases de seriedade para fazerem parte desta conversa, mas se alguém quiser recuperar a emoção de ver um Mundial ou um Europeu antes da internet, dos planos de nutrição, e da profissionalização total da modalidade, observe Yarmolenko: um equilíbrio quase perfeito de gestos técnicos geniais e interlúdios de "agora-não-me-apetece", tudo invariavelmente executado com o ennui decadente de um centurião de férias no palácio de Tibério.

Há jogadores com nomes mais engraçados e/ou eufónicos ?

Há, e quase todos na Croácia. Entre os muito agradáveis Domagoj Vida ou Duje Caleta-Car, o óbvio destaque é um jovem chamado Gvardiol - que soa a uma profecia do tiki-taka escrita em latim há dois mil e quinhentos anos, e recentemente encontrada nas ruínas de Pompeia.

Porque é que as coisas acontecem como acontecem e não de outra maneira?

Ninguém sabe.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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