Peras, pranchas e petições

No Confissões de Agostinho de Hipona, livro menos conhecido mas não menos belo do que a sua Cidade de Deus, o santo narra a fábula de um furto de peras para descrever o modo como foi, na sua juventude, atraído pelo pecado. Era o roubo do fruto, e não o consumo do mesmo, que motivava e atraía o jovem Agostinho, antes de ser cristão, bispo e mais tarde santo. No livro, cuja definição de maldade fica assim resumida, também o amor (ou a consumação do desejo) merece a literatura deste ocidental, comparando o sentimento da paixão a "morrer sem perder a vida" e "enlouquecer sem perder o juízo". Ora, entre as peras, as paixões e a humanidade de Santo Agostinho, foi nas suas Confissões que achei gancho para olhar esta semana, de evidente protagonista e desconhecido desfecho.

O juiz Ivo Rosa abriu, na sua longuíssima leitura da decisão instrutória do Processo Marquês, uma pista de salvação a José Sócrates. Ao pronunciá-lo por crimes de branqueamento de capitais relacionados com crimes de corrupção já prescritos, Ivo Rosa provocou, no imediato, duas consequências. A primeira, política, é a de confrontar o país e os partidos com um ex-primeiro-ministro indiciado (por um juiz que tanto elogia) como tendo sido corrompido em funções. A segunda, jurídica, é a de oferecer à defesa de Sócrates a oportunidade de dizer, com alguma razão, que não pode ir a julgamento por um crime com o qual nunca havia sido confrontado durante o inquérito ou investigação. Rosa, experiente, sabia-o perfeitamente antes de ler o que leu.

Politicamente, a chuvada não deixou ninguém por encharcar. O Chega colocou um cartaz clamando "Vergonha" à porta da Assembleia da República, utilizando ironicamente as mesmas palavras que Carlos César e João Galamba já haviam usado em 2018 para se demarcarem de Sócrates e provando, em certa medida, que o engenheiro se tornou tão transversal que até os dicionários de Ventura e do PS consegue unir. Entre os socialistas, porém, houve avanços e recuos, com Pedro Delgado Alves e Fernando Medina a distanciarem-se criticamente do seu ex-secretário-geral, sendo prontamente repreendidos à porta fechada pela direção do partido. Envergando um cinismo nada subtil, o mesmo deputado que utilizara a comissão de inquérito ao Novo Banco para prejudicar a candidatura de Carlos Moedas a Lisboa decidiu assinar um artigo no Público, no dia seguinte à pronúncia de Ivo Rosa, sobre "as perguntas a que Aníbal Cavaco Silva tem de responder!", mostrando que, neste caso, nem vergonha na cara nem em parte alguma do corpo.

O PSD, na peculiaridade da sua atual liderança, não se saiu melhor. Previsivelmente, Rui Rio não resistiu à sua obsessão com o Ministério Público, fazendo a conferência de imprensa que José Sócrates sempre sonhou que António Costa fizesse: defendendo o segredo de justiça, criticando os julgamentos na praça pública e as fugas para a imprensa, questionando as intenções e os métodos do MP, politizando o caso e atacando, sem dó nem piedade, o primeiro-ministro e o Presidente da República, que haviam afirmado que a justiça está a funcionar. Para Rio, não senhora, não está, considera ele, prometendo não surfar a onda Sócrates, ao mesmo tempo que prepara a prancha e os calções de banho. Antes de nos surpreendermos com as petições e buzinões contra a magistratura que por aí andam, talvez devêssemos prestar maior atenção ao exemplo das lideranças partidárias.

Para terminar nas Confissões de Agostinho, o facto é que os nossos políticos prosseguem fãs e adeptos das ditas peras, ainda que dificilmente venham a alcançar o patamar de santos‒ ou coisa remotamente parecida. Na política, como esta semana se provou, também se morre sem perder a vida e se enlouquece sem perder o juízo.

Colunista

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