Paz podre

A última sondagem de DN, JN e TSF não revela quase nada de novo. O que é preocupante e nos leva por um caminho de estagnação, paralisia e, no limite, ingovernabilidade.

Direita e esquerda, consideradas de modo simplista e dicotómico, mantêm as votações de há dois anos. O PS seria outra vez governo, muito longe da maioria, e o PSD, obrigado a crescer, está parado em intenções de voto pouco mais que catastróficas.

Os novos fenómenos da direita, Chega e IL, consolidam-se como partidos e o CDS caminha para uma irrelevância que demonstra que não há partidos eternos sem eleitores dispostos a votar neles.

À esquerda, o Bloco e o PCP continuam mais ou menos na mesma. Tudo somado, a esquerda continua com maioria e a direita continua em minoria.

A questão coloca-se a partir daqui. Mesmo que o PSD tivesse melhores resultados, não é crível que queira o apoio do Chega, como apregoa Ventura. E não querendo, a maioria parlamentar necessária para formar governo esvai-se.

À esquerda, o Bloco está cada vez mais longe do PS, que tem agora como parceiro estrutural o PCP e conjuntural o PAN.

A tendência de esvaziamento dos dois maiores partidos, com perdas para as franjas, com a pulverização de grupos parlamentares e dispersão de votos, representa, obviamente, uma sociedade cada vez mais dividida, dispersa e pouco disposta a dar cartas de alforria ao PS ou ao PSD. Governar em minoria pode ser uma grande vantagem. Porque obriga a negociação permanente, a acordos pontuais, e evita aquilo a que Soares chamou "ditadura da maioria". Mas governar em minoria também traz grandes desvantagens. A incapacidade de fazer reformas estruturais, de aplicar um programa político e de seguir um rumo ou uma visão para o país.

Um primeiro-ministro obrigado a negociar está sempre de mão estendida aos possíveis parceiros, num equilíbrio instável e casuístico.

Sendo o voto secreto e livre, a democracia cumpre-se respeitando a expressa vontade dos eleitores. E são sempre os eleitores que detêm o poder e a razão.

Até 1979 e, depois, entre 1981 e 1985, Portugal viveu assim. Com governos de seis em seis meses, instabilidade política e incapacidade de decisões estruturais. Em Itália, os governos condenados ao fracasso duraram até há poucos anos. Na Bélgica, recentemente, durante quase dois anos foi impossível sequer formar governo.

PS e PSD, se de facto querem continuar a ser os grandes partidos de governo, terão de convencer os eleitores de que são capazes de mais e melhor do que têm vindo a fazer ao longo das últimas décadas. Terão de arrebatar votos e criar condições para novas maiorias. Ou, então, ficam sequestrados pelas negociações, imposições e agendas dos que, em minoria, podem condicionar de forma decisiva a governação.

Marcelo sempre pediu alternativas claras para uma escolha consciente dos portugueses.

Quando Costa anunciar "a libertação", a política há de voltar em força. E é bem preciso, porque o pântano e a paz podre só farão de Portugal um país mais pobre e mais atrasado, mesmo que com os bolsos cheios até 2026.

Jornalista

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