Paz, amor e autoria moral

No dia 10 de Maio de 1849, duas facções rivais de apreciadores de teatro isabelino ensaiaram um motim à porta do Astor Opera House, em Nova Iorque. O pretexto foi uma encenação de Macbeth protagonizada pelo actor inglês (e amigo de Dickens) William Macready, cujos modos teatrais e dicção aristocrática eram preferidos pelas elites letradas. Macready tinha um inimigo profissional no nativo americano Edwin Forrest, e o antagonismo entre ambos começou na diferença de abordagens e nas claques que essa diferença criou: Forrest empregava um vigor masculino menos afectado, que apelava mais às classes operárias (que supostamente o achavam mais "autêntico"). Após vários boicotes, remoques públicos e sabotagens mútuas, a rivalidade explodiu nos protestos do Astor Opera House: a peça de Macready foi interrompida, o teatro foi invadido, o Exército foi chamado, 31 pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridas.

Foi o culminar natural de todas as energias negativas geradas na problemática década de 40 e a consequência inevitável do ambiente tóxico criado pelas peças de Shakespeare.

A nossa exposição contemporânea a crítica ou comentário que analise fenómenos culturais é, nos dois sentidos da palavra, exaustiva, mas o modelo de análise é apenas um. É um modelo que subscreve uma espécie de teoria miasmática da influência, em que a maioria dos produtos culturais de maior sucesso (canções, filmes, séries) formam uma névoa total e omnipresente, com a capacidade não só para contagiar consumidores individuais mas também para provocar epidemias e afectar directamente dinâmicas mais vastas, determinando a direcção em que forças políticas e económicas se movem. A versão mais modesta do modelo, não insistindo na causalidade, insiste ainda assim em algo mais que a mera simultaneidade: se não as causa, a cultura está pelo menos a reflectir essas inflexões em tempo real. Coisas que acontecem ao mesmo tempo nunca podem ser apenas coisas que acontecem ao mesmo tempo. E dada a tendência para querer aplicar os instrumentos de análise mais recentes (os brinquedos intelectuais mais apelativos), o resultado final descamba sempre para o mais lânguido presentismo: como é que o antigamente criou o destino exacto em que o agora seria sempre inevitável. Quando este modelo se aventura na síntese histórica, os resultados são previsíveis - e familiares para qualquer pessoa que já tenha suspirado através de quatro monografias e sete documentários sobre a relação entre (por exemplo) os slasher films e o reaganismo.

Woodstock "99: Peace, Love and Rage, recentemente estreado na HBO, é um exemplo tão exuberante deste tipo de análise que quase parece uma paródia deliberada dos seus mecanismos mais preguiçosos. Banal, histérico, medíocre ou simplesmente falso enquanto registo de algo que aconteceu em 1999, acaba por ser um documento útil e fascinante sobre o modo como se produz comentário cultural em 2021.

O propósito inicial seria o de documentar um festival de três dias em que grande parte das coisas que costumam correr mal em festivais correu extremamente mal. Mais de 200 mil pessoas foram encafuadas numa antiga base da Força Aérea, com segurança e primeiros socorros ineficazes ou inexistentes, e postas a assar em alguns hectares de alcatrão com temperaturas acima dos 35 graus. Depois, cobraram quatro dólares por uma garrafa de água e ofereceram uma canalização tão avant-garde que havia pessoas a tomar banho em fezes ao fim de poucas horas.

Objectivamente, uma história sobre má logística e organização deficiente, Woodstock "99, é, no entanto, transformado numa audaciosa história sobre "o fim dos anos 90", sobre "a fúria dos homens brancos" e sobre "a sociedade em que vivemos". Os vários convidados - Moby, que fez parte do alinhamento original, e os jornalistas culturais Maureen Callahan e Wesley Morris são os mais insuportáveis - fazem hérnias de esforço na tentativa de reinterpretar o festival como um apocalipse destrutivo, que marcou o fim de tudo o que era puro e promissor na cultura americana dos anos 90.

Uma versão intensificada da teoria miasmática é partilhada por Moby, que garante ter percebido a "energia negativa" do espaço assim que chegou. Há várias referências a uma nebulosa "agressividade", que estaria a flutuar no éter como um fantasma, à espera de ser convocada pelos acordes certos. "Havia qualquer coisa no ar" é o sentimento dominante. "Em retrospectiva, percebo que se calhar estávamos a brincar com o fogo", lamenta, com toda a seriedade, um antigo apresentador da MTV, referindo-se ao facto de a estação ter instigado a rivalidade entre fãs de Backstreet Boys e fãs de Limp Bizkit. Nem ele nem o documentário parecem ter a menor noção de que "a rivalidade entre fãs de Backstreet Boys e fãs de Limp Bizkit" é simultaneamente uma das frases mais cómicas e mais tristes que é possível dizer em voz alta, escrever ou sequer pensar.

A montagem acompanha esta hipérbole constante com o mais cabotino estilo de cábula histórica, em que música ominosa vai acompanhando semáforos visuais de vários eventos que - como confirmam os almanaques - tiveram o azar de acontecer no mesmo ano. A ideia que passa é que Woodstock foi o centro de um fenómeno integrado que incluiu o massacre de Columbine, a impugnação de Bill Clinton, a ansiedade sobre o vírus do milénio, a criação do Napster - e culminou directamente na eleição de Trump e na invasão do Capitólio em Janeiro deste ano. A ânsia de fazer ligações entre todo e qualquer produto cultural é tão desesperada que a dada altura alguém fala numa "enxurrada" de filmes em 1999 que "celebravam" a violência masculina e o assédio sexual. A amostra é tão reduzida que o documentário é obrigado a ilustrar essa observação com imagens de The Matrix.

É na leviandade calculada com que trata o conceito (nunca verbalizado) de "autoria moral" que o documentário mais se esmera. Fred Durst, um pobre pateta de boné que deu centenas de concertos sem qualquer episódio de violência, é aqui tratado como Hitler a discursar em Nuremberga. Mas tantas teses são propostas, insinuadas e prontamente esquecidas que o espectador suspeita estar na presença de um objecto discursivo funcionalmente amnésico. A difusão causal nunca chega a parecer um sinal de ambiguidade ou sofisticação, mas apenas uma confissão inadvertida de incompetência. "Pode parecer simplista", começa alguém; "seria redutor", hesita outra pessoa. E inevitavelmente a montagem assegura que essas simplicidades e reducionismos serão levados a sério. Grande parte do comentário acaba por ser indistinguível das teses clássicas que atribuíam violência juvenil a filmes de terror, jogos de computador violentos - um tipo de raciocínio popularizado quando a geração que esteve presente no Woodstock original começou a ter filhos adolescentes.

A relação com a mitologia dos baby boomers é um dos aspectos sobre os quais o documentário e os seus participantes se julgam muito mais espertos do que são. À vez, cada um revira os olhos sobre as deformações a que a indústria nostálgica submeteu o Woodstock de 1969. Wesley Morris: "O problema com o mito de Woodstock é que sinto que as pessoas são muito selectivas naquilo que optam por recordar." Nunca um segundo revirar de olhos foi tão justificado.

Não deixa de ser curioso que a geração que criou este estilo de periodização continue a definir os termos da conversa, quase postumamente. O documentário da HBO sobre Woodstock "99 tem a estrutura e as intenções que tem em grande parte porque está a tentar (quase de certeza inconscientemente) reproduzir a maneira como a dicotomia Woodstock/Altamont é negligentemente utilizada para dar "significado" à decada de 60: como as esperanças dão lugar à desilusão, como as décadas "nascem" e "morrem", etc. Não existe outro modelo. Os baby boomers criaram o vocabulário para falar sobre "gerações", sobre "décadas" e sobre "momentos culturais". Quem veio a seguir continua a poder reler criticamente o passado e desiludir-se melancolicamente com o presente, mas os instrumentos que tem para o fazer são todos em segunda mão.

Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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