Paris em Lisboa

Quem sobe a Rua Nova do Almada, rumo às elegâncias do Chiado trendy, talvez ignore que ele lá viveu. Já não existe sequer a Pensão Algarve, que o hospedou, nem a Livraria Barateira, à Trindade, onde também esteve. E é tanta a desmemória da cidade que até há pouco nem mesmo havia placa a assinalar tudo isso, a lembrar gerações mais novas que há 80 anos, finais de 1941, a II Guerra passou por aqui, Paris em Lisboa. Numa estada de cinco semanas, encarnou-a um homem jovem, de ar cinematográfico, que mais tarde pagaria com a vida a ousadia do seu gesto, a coragem da resistência.

"On ne naît pas femme, on le devient" ("não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres"), a célebre frase de Beauvoir bem se pode aplicar aos heróis, do nosso e de qualquer tempo. Ninguém vem ao mundo com os genes do heroísmo, são as circunstâncias da vida e os acasos da história que fazem que alguns se distingam pela bravura dos seus actos, pela forma como enfrentam a morte numa vertigem que a nós, os comuns mortais, parece demencial, quase suicidária. Da primeira vez que foi preso, em Junho de 1940, Jean Moulin ensaiou o suicídio, tentando cortar a garganta com os vidros da cela. As cicatrizes ao pescoço, cobertas com a célebre écharpe, dar-lhe-iam mais tarde as credenciais para liderar a resistência ao invasor nazi. No ambiente tenebroso da França ocupada, mergulhado em tantas traições e conspirações, dilacerado pelo vil colaboracionismo com o inimigo, aquelas cicatrizes na pele eram a prova inequívoca de que ele, Jean Moulin, não era traidor nem agente duplo e, por isso, merecia a maior das venturas terrenas, a confiança dos outros.

Jovem prefeito de Eure-et-Loir, em Chartres, os alemães tinham-lhe exigido que assinasse um documento a afirmar falsamente que as atrocidades cometidas em solo gaulês não tinham sido obra dos ocupantes hitlerianos, mas do corpo africano de militares senegaleses que servia o exército de França. Em nome da honra do seu país, e das suas tropas, Moulin recusou, disse não. Depois de torturado, os nazis procuraram humilhá-lo ainda mais, dizendo-lhe que, se era assim tão amigo dos senegaleses, iria partilhar a cela com um deles (para os racistas alemães, dividir o espaço com um africano era o supremo opróbrio). Moulin recordará as horas então vividas, quando tentou matar-se: "Sei que o único ser humano que me pode pedir contas, porque me deu a vida, a minha mãe, me perdoará." Acrescentou, em tom de combate: "Cumpri a minha missão." A seguir, cortou o pescoço, esvaiu-se em sangue, mas foi salvo in extreminis pelos seus carcereiros.

O episódio condensa tudo o que faz de alguém um herói: a inabalável firmeza de convicções; o dever de consciência; a audácia da recusa, mesmo nas circunstâncias mais adversas; a coragem física e moral, levada ao mais derradeiro dos limites, o do desprezo pela própria vida. Em muitas épocas e muitos lugares, outros se comportaram assim, mas só alguns alcançaram a glória de serem celebrados pelo seu heroísmo. No caso de Jean Moulin - e nada disso menospreza, de forma alguma, o valor do seu gesto e a grandeza da sua dignidade -, o processo de heroicização não foi imediato ou claro, surgindo em circunstâncias políticas muito precisas. Em 1964, vinte anos após a sua morte às mãos da Gestapo, De Gaulle preparava-se para disputar as presidenciais do ano seguinte. Para o general, celebrar o mártir da Resistência era, desde logo, evocar o seu próprio papel como líder da França Livre durante a II Guerra. A esquerda, por sua vez, encontrava-se animada pelos bons resultados das legislativas de 1962 e iria apresentar um único candidato ao Eliseu, François Mitterrand, há muito um dos nomes cimeiros do clube Jean Moulin, um agrupamento cívico e político que pugnara para que De Gaulle nomeasse Mendès France como primeiro-ministro. A heroicização de Jean Moulin, que culminou na trasladação dos seus restos mortais para o Panteão, em Dezembro de 1964, foi uma homenagem que França prestou a um dos seus filhos mais dilectos, mas foi também, ou talvez principalmente, um hábil gesto político de De Gaulle que lhe permitiu capitalizar a seu favor a memória da Resistência e, do mesmo passo, ultrapassar pela esquerda os que reclamavam para si o exclusivo da herança do homem da écharpe.

A política, de resto, não era estranha a esse herói tombado em combate, um homem desde novo ligado aos radicais socialistas e, mais tarde, à Front Populaire, sendo, além de prefeito, chefe de gabinete de Pierre Cot, ministro do Ar no governo de Albert Lebrun. A sua trajectória na Resistência só é explicável, aliás, por uma extrema sagacidade política e por uma indiscutível ambição de poder. Foi isso que o levou a apostar em De Gaulle, mesmo contra os camaradas de esquerda, que sempre desconfiaram de que o general pudesse ser um novo Boulanger, um condottiere que, uma vez vencida a guerra, instaurasse em França um governo conservador de direita. Mais ainda, antes de vir para Lisboa, com destino a Londres, onde ia avistar-se com De Gaulle, Jean Moulin tivera a clarividência de se desembaraçar de amizades incómodas, rompendo em definitivo com dois compagnons de route (Louis Dolivet e Pierre Cot) que, pelas suas simpatias esquerdistas, eram suspeitos aos olhos do general e dos serviços secretos ingleses, que os consideravam demasiado próximos de Moscovo.

Na perspectiva de Jean Moulin, De Gaulle era o menor dos males, aquele que poderia federar os resistentes desavindos por lutas fratricidas, mas também aquele que, por um lado, evitaria que os comunistas alcançassem a hegemonia da resistência interna e, por outro, que impediria que os ingleses tivessem a veleidade de, uma vez derrotados os nazis, manterem Pétain à frente dos destinos de França. Para Charles de Gaulle, por seu turno, Moulin era uma bênção vinda dos céus, pois trazia para a sua órbita o "povo de esquerda" e o legado da Frente Popular, ou seja, toda uma corrente política até aí hostil ao general, mas sem a qual este dificilmente poderia firmar-se como líder supremo da Resistência. Quando se encontram em Londres, num coup de foudre para ambos, firmam um acordo pragmático: Moulin acolhe as críticas do general aos desmandos da III República; De Gaulle, em contrapartida, aceita inscrever o lema liberté, égalité, fraternité no emblema da França Livre e, num discurso pronunciado no Albert Hall, em 15 de Novembro de 1941, faz uma viragem de 180 graus, adoptando um registo republicano (até aí, só falava de honneur et patrie) em que usou, pela primeira vez, a palavra democracia. Num certo sentido, Moulin democratizou Charles de Gaulle, no que foi, porventura, o contributo mais importante e duradouro do seu legado político. Fê-lo, contudo, por puro pragmatismo, sem acreditar piamente nas virtudes do general, confidenciando a alguns próximos que De Gaulle era uma solução provisória, de compromisso, mas essencial para a vitória. Após o triunfo sobre os nazis, on verra, disse aos camaradas.

Charles de Gaulle terá cedido a Moulin pois necessitava desesperadamente de alguém como ele, das cicatrizes ao pescoço, sinal de que fora resistente sincero, sobre o qual nunca poderiam pairar suspeitas de colaboracionismo. Com a entrada dos americanos na guerra, após o ataque a Pearl Harbor, a 7 de Dezembro de 1941, De Gaulle precisava com urgência dum representante "diplomático" no interior de França, que mostrasse aos Aliados que, apesar da ocupação nazi, havia ainda um resquício de soberania por que valia a pena lutar (sendo ele, De Gaulle, o protagonista óbvio da luta). Ao contrário do que muitos hoje julgam, a posição do general, nessa fase, era mais do que precária aos olhos dos Aliados: sobretudo depois dos sucessos no norte de África, da vitória em El-Alamein e do Darlan Deal De Gaulle tornara-se descartável para os ingleses e, em especial, para os americanos, que nunca acharam graça ao seu panache e insuportável feitio. Daí que, para De Gaulle, a "resistência interna", desenvolvida dentro do território de França, através de acções de propaganda e sabotagem, fosse absolutamente vital para manter-se à tona de água num delicadíssimo xadrez político e diplomático, e quando Roosevelt pensava em nomes para o substituir como líder da França Livre e interlocutor dos Aliados.

A missão de Moulin, preparada por este em Lisboa e acordada com De Gaulle em Londres, foi, assim, elemento fundamental, absolutamente fundamental, para o futuro de França no pós-guerra. Se acaso Jean Moulin não tivesse regressado ao seu país e aí coordenado os três braços da Resistência, até então divididos, se não tivesse gerido com enorme prudência as redes clandestinas de oposição aos nazis, dificilmente o general De Gaulle poderia ter descido triunfalmente os Campos Elísios no dia da libertação de Paris. A história teria sido diferente, muito diferente, e talvez França não tivesse conseguido o prodígio de surgir como vencedora de uma guerra em que, no rigor dos factos, fora militarmente vencida e vergonhosamente invadida pelo inimigo.

Entretanto, Moulin fora capturado, torturado, morto pela Gestapo (numa das muitas ironias da história, o seu algoz, Klaus Barbie, seria recrutado pelos serviços secretos americanos no pós-guerra). Naquilo que foi outro serviço de Moulin à pátria, o seu exemplo do resistente tombado em combate foi enaltecido aos quatro ventos, propalado pela França e pelo mundo, o seu nome foi dado a centenas de escolas, ruas, praças, permitindo dessa forma esquecer a mancha negra do colaboracionismo de muitos com o invasor nazi, aquilo que fez que, por exemplo, no n.º 84 da Avenue Foch, em Paris, sede da Gestapo, todos os executores das torturas fossem cidadãos franceses, tendo os alemães por único encargo dirigir interrogatórios, sem tocarem com um dedo nos presos à sua guarda. Foram francesas as mãos que torturaram Jean Moulin.

Em 1964, no discurso que assinalou a entrada das suas cinzas no Panteão, considerado uma das mais brilhantes peças oratórias da história da República francesa, André Malraux saudou-o e "aos que morreram nas masmorras sem ter falado, como tu". Mas saudou também aqueles que, "o que era bem mais atroz", falaram na prisão, sob o jugo nazi. Como disse um dia o escritor Mário de Carvalho, "um homem na prisão não é um homem, é um homem na prisão", e que ninguém tenha a ousadia de condenar os que falaram no cárcere, os que denunciaram camaradas em circunstâncias que, para nós, são inimagináveis.

Jean Moulin foi um herói porque morreu sem falar, mas também porque o heroicizámos como tal, omitindo, nesse processo, outros aspectos mais sombrios do seu percurso. Há poucos anos, causou escândalo a revelação de que, enquanto prefeito em Chartres, entregou aos nazis, a pedido destes, listas de judeus que viviam na região, muitos dos quais acabariam chacinados em Auschwitz. É estranho, singularíssimo, que um homem que recusou acusar falsamente soldados senegaleses tenha sido o mesmo que, tempos depois, entregou ao inimigo nomes de judeus destinados a morte certa. A estranheza, porém, só surge porque heroicizámos Jean Moulin a um ponto extremo, atribuindo-lhe uma fibra e uma natureza diferentes das nossas, os comuns mortais. Esquecemos que foi um homem comum, igual aos outros, como nós, e é justamente isso o que o torna herói, um herói humano, demasiado humano.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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