Parceiros invisíveis

No dia 8 de março, estreou na RTP uma série documental de três episódios a partir do filme de Raquel Freire Mulheres do Meu País, que glosa a obra de Maria Lamas, publicada em fascículos entre 1948 e 1950. Nunca é de mais destacar a ação de Maria Lamas em prol da emancipação da mulher e a forma como desafiou os códigos estabelecidos. Muitas mudanças aconteceram nestas décadas, mas ainda estamos longe da igualdade de género. Sendo as mulheres as principais vítimas da desigualdade, importa considerar o que representou para os homens uma distribuição de papéis que também lhes retirou direitos.

Em 1995, a IV Conferência Mundial sobre as Mulheres, organizada pelas Nações Unidas em Pequim, teve como tema central "Ação para a igualdade, o desenvolvimento e a paz". Infelizmente, as áreas de preocupação identificadas há mais de duas décadas mantêm-se atuais, desde as questões da pobreza, à violência, à capacitação, à saúde, sendo cada vez mais necessário lutar por esses direitos. Contudo, o grande salto que essa conferência representou foi a mudança do foco na mulher para o conceito de género como indicador transversal das políticas, servindo para avaliar o desenvolvimento das sociedades. Parece uma subtileza, mas de facto representou uma profunda alteração com consequências no modo como entendemos e analisamos as sociedades.

Recordo os debates apaixonados que esta mudança de perspetiva gerou e evoco (mais uma vez) uma mulher que muito trabalhou (e refletiu) sobre a questão. Em 1992, Maria de Lourdes Pintasilgo foi convidada para presidir, no âmbito das Nações Unidas, à Comissão Independente sobre a População e a Qualidade de Vida (CIPQV), e foi também nesse contexto que se tornou ainda mais claro de que forma a situação das mulheres representava um indicador da qualidade de vida em geral. O relatório da CIPQV foi publicado em 1996 com o elucidativo título "Cuidar o futuro. Um programa radical para viver melhor".

A sua leitura continua inspiradora e, sobretudo, tremendamente atual. A própria constituição da CIPQV (igual número de homens e mulheres, igual número de participantes do norte e do sul) é bem representativa da forma como Maria de Lourdes entendia o lugar dos homens na luta pelos direitos das mulheres. Quando hoje vemos movimentos como #ElesPorElas - que envolvem os homens na luta pela igualdade de género, também eles contestando estereótipos como "um homem não chora", "um homem tem de ser forte" - percebemos como todos sofremos e se torna necessário um caminho conjunto.

Num episódio de Histórias das Mulheres do Meu País, Leonor de Freitas, proprietária da famosa casa vinícola Ermelinda de Freitas, conta que um dos agricultores com que trabalhou lhe dizia "não faço negócios com mulheres", como também a reprovavam por andar de bicicleta ou gostar de futebol.

No país que conhecemos - onde o número de femicídios ainda nos envergonha -cada vez mais desaparece a separação entre tarefas para homens e para mulheres, mas o caminho ainda é longo. Em outras regiões do mundo é longuíssimo, com muitos retrocessos que não podemos permitir. Quanto mais acesso à educação, mais oportunidades haverá para construir uma sociedade igualitária de que todos beneficiarão.

Envolver os homens na igualdade de género, envolver os pais nos cuidados diários dos filhos, agir em conjunto sobre a violência, analisar os discursos e as práticas sociais e a forma como eternizam comportamentos é uma forma de conhecer os parceiros invisíveis que, muitas e muitos de nós, ainda somos.

Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-Americanos

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