Para quê complicar inutilmente

"Pensando, o que impensado existe? Nascem Ervas sem razão dada". Este pequeno excerto da obra de Fernando Pessoa (Poema de Ricardo Reis), ilustra o absurdo de algumas decisões recentes sobre o Plano Nacional de Vacinação contra a COVID-19 em Portugal.

Esta terça-feira, o Presidente da República anunciou ao País o fim do Estado de Emergência e que iremos passar a uma nova fase de controlo da pandemia, na qual a evolução do processo de vacinação é decisiva. São boas notícias, mas neste particular temos certamente que fazer melhor. Os contratempos são vários e o processo conhece altos e baixos, embora todos os dias ouvimos anúncios de que o processo de vacinação será mais rápido e o próprio coordenador do plano de vacinação, Vice-Almirante Gouveia e Melo, antecipa que, dentro de duas a três semanas, será possível vacinar em média 100 mil pessoas por dia. Na mesma ocasião, a Diretora-Geral da Saúde determina que a organização do processo será cada vez mais centralizada e limita a 200 vacinas diárias na generalidade dos centros de vacinação espalhados pelo país.

Na prática, a ideia é organizar a segunda fase de vacinação assente nos centros de saúde e alguns (poucos) espaços de vacinação nos principais centros urbanos, otimizando assim o pessoal médico e de enfermagem disponível. Neste particular, a imensa capacidade de gestão e de recursos municipais será orientada para tarefas complementares, tipo apoio nas refeições do pessoal médico e operações de limpeza dos espaços (serviço de faxineiro e catering?!).

Ora, se tivermos em conta que o objetivo será inocular cerca 15 milhões de vacinas e com caráter de urgência (duas doses), face ao curto espaço de tempo em que queremos imunizar a população, tudo isto parece contraditório. Todos sabemos que se não fosse a disponibilidade de meios e capacidade de resposta das autarquias na gestão da pandemia, primeiro, e agora na organização do processo de vacinação, pouco mais do que os profissionais de saúde, professores e dos lares estariam hoje vacinados, porquanto a generalidade das estruturas de apoio ao plano de vacinação foram disponibilizadas e estruturadas pelas autarquias.

Pensar que é possível incrementar o plano de vacinação nacional com base em orientações técnicas ou despachos ministeriais, sem mobilizar todos os recursos nacionais disponíveis, sobretudo aqueles que se encontram mais próximos das populações, será o primeiro passo para uma vez mais o nosso país conformar-se ao rótulo de um país irremediavelmente atrasado face aos seus parceiros europeus também no domínio da gestão da pandemia.

E a questão óbvia que se coloca e suscitada nos poemas de Ricardo Reis, será: para quê complicar inutilmente?

Sim, qual o racional de concentrar os processos de vacinação apenas nos grandes centros urbanos, quando o objetivo é a eficácia, segurança e celeridade do processo de vacinação? A experiência de colaboração com os municípios na primeira fase de vacinação, não revelou capacidades extraordinárias em todo o país, mitigando as inúmeras insuficiências do Serviço Nacional de Saúde? Será que podemos suspender a propagação da COVID até que a Administração Central organize os recursos necessários para vacinar os portugueses no menor curto espaço de tempo? Creio que não. E sobretudo alerto para o grave erro de planeamento se as cúpulas de decisão no âmbito do Plano de Vacinação insistiram na centralização de recursos, quando o foco deve ser a massificação de vacinas e a proximidade das populações.

Presidente da Câmara Municipal da Batalha

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