Para falar dos Açores e de um açoriano

"Pois fica-se sabendo
Que da espuma do mar sai gente e amor também"

Vitorino Nemésio, Sapateia Açoriana

A memória é um estranho viveiro de temas para quem escreve e não é preciso ser Proust para encontrar revelações numa madeleine. Hoje sentei-me para escrever esta crónica com intenção de a fazer mais uma vez à volta de um amigo, agora não felizmente por o ter perdido, mas sim à volta de um livro que recebi, cheio de ideias e de memórias, de inteligência e de rico conteúdo histórico, uma coletânea de estudos em homenagem ao meu amigo Mário Mesquita, A Liberdade por Princípio (Ed. Tinta da China).

Mas a memória, tanto quanto a imaginação, é aquela folle du logis, que Malebranche descobria a perturbar o desenrolar da razão. O livro, que veio trazer perto de mim o forte perfil cultural e humano do meu vieux camarade Mário Mesquita, conduziu a minha mente, incapaz de se medir com o teórico da comunicação e grande nome do jornalismo que se me apresentava, a saltar das ideias para as memórias, das teorias e do jornalismo para a vida e para o passado - e comovi-me logo ao ler a notável entrevista inédita com Ernesto Melo Antunes, publicada neste livro por Maria Inácia Rezola.

Incapaz de assentar num tema e num discurso, a minha memória continuou a caprichar na função roubada à imaginação da "maluquinha do lar". E aí a memória de um verão de 1973, passado em Ponta Delgada em casa de Mário Mesquita, veio impor-se ao desregramento a que eu tinha abandonado a minha mente.

Eu conhecera os Açores na infância, fizera mesmo a primeira classe na escola primária das Velas, ilha de São Jorge, e as ilhas eram para mim a leve recordação de uma vida solta e livre. Mas nesse verão em Ponta Delgada, em contacto com a oposição democrática açoriana, compreendi o que significava a insularidade e os seus custos, enquadrei melhor a miséria que recordava das gentes de São Jorge, entendi a necessidade evidente da autonomia e conheci os grandes clássicos açorianos, de Gaspar Frutuoso a José Bruno Carreiro. Fui numa viagem de barco por todas as ilhas e levei papéis subversivos para entregar nos portos a contactos seguros. E conheci nessa altura Melo Antunes, num memorável almoço na sua casa das Furnas.

Esse inesquecível verão de 1973 fez-me compreender melhor os Açores, a sua especificidade, a sua gente. Tornou-me mais sensível às suas reivindicações e exigências e ajudou-me a compreender melhor as personalidades complexas dos meus amigos açorianos.

Peço ao Mário Mesquita desculpa de o referir deste modo pessoal e intimista, sem realçar devidamente tudo aquilo que ele nos deu e quanto a nossa democracia lhe deve. Mas eu não poderia seriamente medir-me com este livro, que constitui desde já uma peça importante para os nossos debates e para a nossa história.

Mas a minha memória dos Açores foi ainda levada pela "louca da casa" para outras paragens. É que, a propósito da grave questão da transferência do Tribunal Constitucional para Coimbra, ocorreu-me obsessivamente, por razões que só a tal doida do domicílio conhece, este trecho d'As Farpas de Eça de Queiroz:

"Às vezes os jornais dos Açores, tomando um ar severo, voltam-se para a Metrópole, e gritam-lhe no rosto: madrasta! O reino imediatamente lhes manda, com todo o zelo - dois desembargadores!

Mas daí a pouco os Açores, inquietos, começam a dizer que não seria mau tentar os Estados Unidos! O país ataranta-se; e para lisonjear os Açores, manda-lhe mais desembargadores. De todos os paquetes, os Açores, aterrados, veem desembarcar turbas de desembargadores. Já aquele fértil solo negreja de desembargadores.

- Basta! - exclamam os Açores sufocados. - Basta de segunda instância!

E a Metrópole, inexaurível no seu amor, continua impassível a verter-lhe no seio - catadupas de desembargadores!"

E eu que só queria falar dos Açores e do Mário Mesquita!...

Diplomata e escritor

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