Para além do bem e do mal

Aquele caminho ficou para sempre com o seu nome, tantas as vezes que o percorreu, ruminando na solidão de si mesmo. Esteve ali uma larga temporada, de Dezembro de 1883 até à Primavera do ano seguinte, mas regressaria mais vezes. Não foram tempos felizes, esses: pouco antes, Lou, a grande amada, que por três vezes recusara casar-se com ele, rompera agora em termos irreversíveis, definitivos; e Richard, o seu antigo amigo, que tanto venerava, morrera em circunstâncias estúpidas em Veneza, de uma apoplexia cardíaca, depois de uma tempestuosa discussão com a mulher, que o acusava de andar tomado de amores por outra. Ele próprio não se sentia bem de saúde, para dizer o mínimo. Nas salas de jantar dos hotéis e das pensões onde dormia, afastava-se dos outros comensais, que o censuravam ou gracejavam com a sua dieta espartana, feita de chá fraco, ovos, um pouco de carne. Nem esses sacrifícios o poupavam à Blitzkrieg intestinal que o seu corpo lhe movia e que o fazia ficar prostrado na cama durante dias a fio, por vezes uma semana inteira, acometido de vómitos, de dores lancinantes nas têmporas e de diarreias agudas, como escreveu a sua biógrafa Sue Prideaux num livro saído entre nós em 2019 (Eu Sou Dinamite!, Temas e Debates).

Segundo os seus próprios cálculos, estava a sete oitavos de ficar totalmente cego: o brilho das luzes causava-lhe dores lancinantes, manchas escuras dançavam por todo o seu campo de visão, não conseguia focar os objectos ou as letras impressas numa página. Para mais, com os antecedentes familiares que tinha, temia estar a enlouquecer de vez, apavorado pelos avanços da ciência que garantiam existirem causas hereditárias na insanidade. Os seus livros não vendiam, o último tivera uns cem compradores, não mais do que isso, e os editores não queriam publicá-los; o próximo teria de ser impresso por si, particularmente, com uma tiragem ridícula de uns seiscentos exemplares. Nas raias da miséria, fez um inventário dos seus bens terrenos: algumas camisas, dois pares de calças, dois casacos, chinelos e sapatos, artigos de barbearia e de escrita, uma caçarola que a irmã lhe mandara e com a qual nunca conseguira ajeitar-se. Para sobreviver, dependia de uma pensão que recebia de uma universidade cristã, e que temia fosse cancelada a todo o instante, dado o teor cada vez mais antirreligioso dos seus últimos escritos.

No Inverno de 1883, instalou-se num pequeno quarto da modesta Pension de Genève, em Nice, na rue Saint Étienne. De quando em vez, apanhava os comboios ou os eléctricos que contornavam a costa até Saint-Jean Cap Ferrat e Villefranche e daí subia as colinas, escalava ao alto, deleitando-se com os ventos fortes e com aquilo que julgava ser a mancha-azul da Córsega a irromper de longe, no horizonte infindo do Mediterrâneo. Segundo a sua biógrafa, atribuía grande significado ao facto de o seu pulso bater ao mesmo ritmo que o de Napoleão, sessenta pulsações por minuto. O trilho que aí percorria, dois quilómetros entre Èze-sur-Mer, junto à costa, e a aldeia de Èze, lá no alto, ficou para sempre conhecido como Le sentier de Nietzsche, em homenagem ao filósofo que, como tantos outros, precisava de caminhar para pensar. É hoje atracção para os turistas que enxameiam o Sul de França.

Friedrich Nietzsche esteve lá várias vezes, foi aí que fez amizade com o Dr. Julius Panetch, um jovem zoólogo judeu de Viena, e com Resa von Schirnhofer, uma rica feminista de 29 anos, que decidira rumar a Nice no final do seu primeiro semestre na Universidade de Zurique, das poucas que aceitavam matrículas de mulheres. Durante dez dias de afecto casto, andaram os dois pela região adentro, aspergidos pela fragrância dos tomilhos, cegos pela claridade da luz, ensurdecidos ao barulho incessante das cigarras. Friedrich levou-a a ver uma corrida de touros a Nice, depois de lhe garantir que as regras francesas impediam o uso de cavalos e a morte do animal na praça, mas, a meio da tourada, os dois tiveram um ataque de riso incontrolável, ante o caricato do espectáculo. Porém, quando a banda tocou a Carmen, Nietzsche entrou em transe, electrizado pela música, que nele tinha um efeito poderoso, quase místico ("nunca houve um filósofo que, na sua essência, tenha sido um músico como eu", escreveu um dia, apesar de reconhecer as suas debilidades como compositor, cruelmente apontadas por Wagner). Uma semana depois de Resa ter partido, Friedrich também rumou a Veneza, mas regressaria mais tarde. Foi na Provença que, de um jacto, escreveu a terceira parte de Assim Falava Zaratustra e que redigiu, em duas semanas, o muito mais polémico Para além do Bem e do Mal.

Editado em Leipzig em 1886, Nietzsche criticava nesse livro os preconceitos e o dogmatismo dos filósofos que o precederam, os quais tendiam a dividir as coisas entre "boas" e "más", como se existisse uma moral objectiva que lhes pudesse servir de critério orientador e máxima de conduta. O livro é também, entre muitas outras coisas, um ataque ao pan-germanismo e uma defesa dos judeus, um louvor à unidade da Europa e à "delicadezza meridional" do catolicismo, em confronto com a aspereza do protestantismo do Norte.

Lembrei-me do livro e de Nietzsche há poucos dias, quando soube da morte da princesa Maria do Liechtenstein, um principado niilista situado no coração da Europa. A associação talvez pareça estranha, mas devemos recordar que Nietzsche foi chamado Friedrich por ter nascido no dia do 49.º aniversário do rei Frederico Guilherme da Prússia e que o seu pai, o pastor luterano Carl Ludwig Nietzsche, foi preceptor de princesas na corte ducal de Altenburg, de jovens iguais ao que Maria foi, in illo tempore.

Maria era uma princesa dos quatro costados que nasceu condessa em 14 de Abril de 1940, com o nome quilométrico de Marie-Aglaé Bonaventura Theresia Kinsky von Wichnitz und Tettau, sendo neta, pelo lado paterno, do conde Ferdinand Kinsky von Wichinitz und Tettau, que foi 7.º príncipe de Tettau com apenas um ano, e da princesa Aglaé von Auersperg. Pelo lado materno, provinha do conde Eugen von Ledebur-Wicheln e da condessa Eleonore Larisch von Moennich, bisneta de Barbu Dimitrie Ştirbei, príncipe da Valáquia, na Roménia.

A futura princesa consorte do Liechtenstein viu a luz na Boémia e Morávia, que agora pertencem à República Checa mas que à época eram um protectorado nazi instituído em violação grosseira dos acordos de Munique e onde 85% da população judaica foi exterminada, convindo dizer que a Casa Kinsky, a que ela pertencia, se portou pessimamente em toda essa tragédia, alinhando às descaradas com o Partido Germânico dos Sudetas, o que foi especialmente notório com o chefe da Casa, o príncipe Ulrich, gesto que não o salvou de ter muitas das terras confiscadas pelos alemães e, de novo, nacionalizadas pelos comunistas em 1948.

Com o avanço dos russos e o fim da guerra, os pais de Maria fugiram para a Alemanha em 1945, onde ela se formou e trabalhou numa editora de Dachau, localidade dos arredores de Munique hoje lembrada por ter sido sede de um campo de concentração onde foram mortos 41 500 seres humanos, números redondos.

Em 30 de Julho de 1967, Maria casou-se na Catedral de St. Florian, em Vaduz, com Hans-Adam II, nome abreviado de Johannes Adam Ferdinand Alois Josef Maria Marco d"Aviano Pius, filho de Franz-Joseph II e da condessa Georgina von Wiczek, familiarmente conhecida como princesa Gina (a endogamia é tanta que também ela era da Casa Kinsky e Tettau).

Hans-Adam II tem por título oficial príncipe de Liechtenstein, duque de Troppau e Jägerndorf, conde de Rietberg, soberano da Casa de Liechtenstein e uma fortuna familiar estimada em 7,6 biliões de dólares e uma fortuna pessoal de 4 biliões de dólares, sendo um dos chefes de Estado mais ricos do mundo e o monarca mais rico da Europa, rainha Isabel II incluída. Talvez isto pareça estranho tendo em conta que o Liechtenstein é um país minúsculo de 160 quilómetros quadrados, do tamanho de Lisboa, o sexto mais pequeno do mundo em termos populacionais, sem comboios nem aeroporto, com apenas um bispo, um túnel, uma piscina ao ar livre, um hospital, uma prisão e um McDonald's, mas... com 15 sedes de portentosos bancos, que em 2017 geriram qualquer coisa como 300 biliões de dólares, o que significa 8 milhões de dólares por habitante do território. O príncipe é dono do LGT Group, o maior grupo familiar bancário do mundo, envolvido em 2008 numa fraude fiscal de proporções gigantescas, e, em 2003, impôs por plebiscito uma enorme ampliação constitucional dos seus poderes, tornando-se praticamente um monarca absoluto, com direito de veto sobre todas as decisões do parlamento (o príncipe ameaçou abandonar o país se o referendo não lhe fosse favorável). Em 2012, a população rejeitou de forma esmagadora uma proposta para diminuir os poderes reais, tendo o príncipe herdeiro Alois afirmado, dia antes. que iria vetar qualquer tentativa de flexibilizar as leis do aborto. O Liechtenstein só em 1984 concedeu o direito de voto às mulheres, e mesmo assim por uma margem tangencial, sendo esta apenas uma das muitas bizarrias de um território situado muito para lá do bem e do mal: num faux pas ganancioso, o príncipe Hans-Adam tentou patentear na América o arroz Basmati (!), uma cultura milenar da Índia, do Bangladesh e do Paquistão, sendo obrigado a recuar devido aos protestos daqueles países.

Como é possível tudo isto? Como é possível um príncipe ter tanta riqueza acumulada, num país que importa 85% da sua energia? Depois do escândalo de 2008, as coisas melhoraram muito em termos de transparência, é preciso dizê-lo, mas o Liechtenstein continua a ser um dos poucos países do mundo com mais empresas do que pessoas. No Luxemburgo ainda é pior e muitos interrogam-se como é que o território não integra a lista dos paraísos fiscais da UE, a qual é, ela própria, fértil em tais paraísos (isto enquanto defende a "justiça tributária" e um "modelo social europeu" que assenta no pagamento de impostos pelos cidadãos).

Os paraísos fiscais são infernos de transparência, os esgotos por onde desagua o que de pior há no mundo: crime organizado, terrorismo, tráficos de armas, de drogas, de órgãos e de pessoas, máfias façanhudas, corrupção. O desastre do Afeganistão mostra que é difícil, talvez impossível, vencer os terroristas no terreno. Cortar-lhes as fontes de financiamento e não reconhecer transacções ou empresas criadas em paragens nada recomendáveis parecem ser as únicas soluções possíveis. O mundo seria infinitamente melhor, paradisíaco, sem esta praga dos "paraísos fiscais", mas em sua defesa muitos e muito obscuros interesses se levantam, é triste. Entretanto, gastam-se biliões em exércitos para combater talibãs, deixando-os depois serem financiados tranquilamente nas nossas costas e nos "paraísos" que continuamos a tolerar (dias depois do 11 de Setembro, o Departamento do Tesouro dos EUA revelou que os financiadores e consultores financeiros da Al-Qaeda, os grupos Al Taqwa e Barakaat, tinham escritórios... na Suíça e no Liechtenstein).

Nietzsche tinha razão: vivemos para além do bem e do mal.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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