Ou fazem caminho ou chama-se o bloco central

O encontro de Rui Rio e Francisco Rodrigues dos Santos confirmou uma fragilidade que se espera poder vir a resultar num combate sem tréguas, sem o qual os dois partidos correm o risco de perpetuar o Partido Socialista no poder. Por muito que procurem cantar vitória, Rio e Rodrigues dos Santos perceberam que as presidenciais os fragilizaram e encenaram um murro na mesa que volta a colocar o Chega no centro das atenções, mesmo que pela decisão de o excluir da aliança autárquica.

Não chega repetir que "o Chega, para ter conversas com o PSD, tem de se moderar" e sentenciar que, como "o Chega não se tem moderado, não há conversa nenhuma", porque os eleitores têm na memória que o extremismo de Ventura não impediu um acordo nos Açores, sem participação no governo - onde também não está a Iniciativa Liberal (IL) - mas com marcada influência no programa de governo. É preciso ir mais longe, combatendo as ideias do Chega, para convencer os eleitores de que não serão essas ideias a condicionar uma eventual futura maioria de direita, por contraponto a uma maioria de esquerda. Sem isso, o eleitorado do centro, que Rio reclama para o PSD, acabará a fugir para o PS, tanto mais que os socialistas já demonstraram capacidade para "meter no bolso" quer o BE quer o PCP.

Também não será com aproximações envergonhadas à IL, com um crescimento moderado mas sustentado, que se faz crescer o bloco democrático de centro-direita. Até por contraponto à rejeição de uma aproximação ao Chega, é preciso chamar com urgência o partido IL para fazer crescer uma alternativa de governo. Falharam o passo na composição do governo regional dos Açores, convém integrar a IL no máximo possível de coligações autárquicas. Cada um dos partidos deve ir sozinho às eleições legislativas, mas o caminho precisa de que alguns passos sejam dados em conjunto, para que se perceba o cordão sanitário à volta de Ventura e se afirme uma alternativa coerente e democrática.

Se dependesse de mim, nunca haveria um governo de que fizesse parte um partido racista, mas a política depende muito mais da soma de votos para formar uma maioria do que da vontade de comentadores, como se viu com a geringonça. Já todos percebemos que não está excluída uma maioria de direita de que faça parte o Chega, convém é chegar lá com os danos controlados, travando o crescimento exponencial que agora se verifica. Nessa circunstância, com um peso relativo muito grande do Chega e as exigências já formuladas pelo Presidente da República, a maioria pode ser possível matematicamente e não ser politicamente.

Com a existência de uma maioria impossível de concretizar à direita, implicando que ela não existe à esquerda, há sempre solução, chama-se bloco central. Funciona por um tempo muito curto, é aceite com o país à beira do colapso, quando todas as outras soluções falharam, e acabará novamente com uma disrupção do sistema partidário. Em 1985, resultou no aparecimento do PRD como terceira força política, se houver uma próxima vez, não se sabe em que pode resultar. Mas, se esse governo não atenuar os problemas da desigualdade e da pobreza, resolvendo problemas estruturais da organização do Estado e da economia, não é de excluir que contribua ainda mais para o crescimento exponencial da extrema-direita. Sabendo que não há impossíveis, seria imperdoável que falhássemos.

Jornalista

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