Os idos de Levine (1943-2021)

No elogio fúnebre de Júlio César, quarenta e quatro anos antes de Cristo, Marco António, seu amigo, proclama na peça que o eternizou: "O mal que os homens fazem vive depois deles. O bom é quase sempre enterrado com os seus ossos. Assim seja com César." Nestes idos de março, os olhos da história voltaram a lembrar o assassinato do ditador romano e, ao mesmo tempo, a perda de um vulto mais contemporâneo, igualmente trágico e eventualmente imortal.

James Lawrence Levine, maestro e diretor musical do Met durante quarenta anos, faleceu no nono dia do mês corrente, aos 77 anos. O seu legado enquanto artista e a sua personalidade enquanto homem morreram em conflito. Nos obituários que encheram a imprensa de referência norte-americana na última semana, tal foi transversal.

Em 2017, depois de quatro décadas de relação e direção na ópera metropolitana de Nova Iorque, Levine foi demitido devido a uma investigação interna à sua conduta como professor. Acusado de assédio por quatro ex-alunos, abandonaria a vida profissional. E assim a mítica imagem do maestro despenteado, de cabeleira branca nos ares ao lado do rato Mickey, desapareceria do imaginário cultural, sendo substituída pelo ensombramento das referidas alegações.

Aquele que teria ficado, possivelmente, lado a lado com Leonard Bersntein, como um dos gigantes da música do século XX, partiu de glória e fama defuntas. O que Harvey Weinstein foi para Hollywood, James Levine foi para a Broadway.

Tendo conduzido mais de 2500 concertos, foi relutantemente que abandonou os palcos, ainda antes do escândalo, por razões de saúde. Em junho deste ano, teria celebrado o cinquentenário da sua primeira atuação no Met, com apenas 29 anos. Chegou a desempenhar as funções de maestro numa cadeira de rodas, mas o modelo revelou-se pouco produtivo e eficiente para os demais artistas. Não o viam, nem viram. Os gestos excêntricos, que antes acompanhavam e marcavam o ritmo das partituras, eram então involuntários. O diagnóstico de Parkinson, que desmentiu durante anos, tornou-se indesmentível. Já antes fora obrigado a afastar-se do ofício, devido a uma queda e a um cancro no rim.

Assumiria um papel emérito durante cerca de um ano, até o número de denúncias ficar incomportável para a administração do Met, a maior companhia de artes em atividade nos Estados Unidos da América. E a desgraça de Levine cairia em cascata: casas de ópera baniram-no, estações de rádio retiraram os seus concertos do ar, as filarmónicas de Berlim, Munique e Viena, com que colaborou durante décadas, cortaram quaisquer laços com o norte-americano, nascido no Ohio, em 1943, neto de um cantor popular e filho de uma atriz.

"É difícil imaginar outro maestro americano alcançar tamanhas alturas de que cair", escreveu Michael Andor Brodeur, no The Washington Post, com razão. Levine processaria o Met por difamação e quebra de contrato, acabando por ser indemnizado em mais de três milhões de dólares. As acusações, que sempre negou, são oriundas de múltiplos testemunhos e envolvem relatos de "intimidação", "culto de seita" e "sexo em grupo" (Boston Globe, 2018) com jovens rapazes.

Se várias vezes se argumenta que a arte deve ser independente da conduta (ou não haveria arte), as responsabilidades de liderança de um maestro e as consequências das suas ações para uma geração de músicos não podem ser menosprezadas. Levine não estava fora de tempo, estava fora do normal.

Morreria em Palm Springs, na Califórnia, com 77 anos, sozinho. A música não será enterrada com os seus ossos.


Colunista

Mais Notícias

Outras Notícias GMG