Os efeitos colaterais do Brexit

Só agora começamos a sentir alguns dos efeitos da saída do Reino Unido da União Europeia, mas, com a pandemia como pano de fundo, as tensões estão rapidamente a escalar, trazendo reminiscências de uma velha Europa.

Com residência em Lisboa e contrato de trabalho Inglês nunca precisei de visto de trabalho para as minhas deslocações frequentes a Londres. Tudo isso mudou esta semana, com um pedido de visto de trabalho que tem por base o novo sistema de pontos que o Reino Unido implementou a partir de 1 de janeiro. Segundo as novas regras, não terei problemas em obter o visto, mas não será assim para todos os nossos concidadãos.

O acordo alcançado entre a União Europeia e o Reino Unido retira este último do mercado único e de alguns programas como o Erasmus, mas salvaguarda a livre circulação de bens sem taxas ou quotas, embora com controlos alfandegários.

Não fosse a anedota de um motorista Inglês ter visto a sua sandwich confiscada na fronteira Holandesa nos primeiros dias do mês, o que causou indignação no Reino Unido, tudo parecia apontar para uma nova relação comercial sem grandes percalços e para um divórcio civilizado.

Contudo, há sinais de que o cenário pode mudar rapidamente. O custo da madeira para a construção de casas em Inglaterra subiu 20% em janeiro e a atividade de alguns brokers em mercados europeus já se viu limitada pela nova regra que impõe às entidades financeiras da City uma presença física nos mercados Europeus onde operam.

Durão Barroso, conselheiro da Goldman Sachs, e bom conhecedor das instituições Europeias, avança esta semana que não acredita que seja dada equivalência às instituições financeiras inglesas por parte da UE e que uma divergência progressiva será inevitável. Entretanto, Inglaterra recusa dar estatuto diplomático à representação da União Europeia em Londres.

Mas a escalada de tensão não acaba aqui. Sinal disso mesmo é a mais recente polemica em redor da vacina desenvolvida em Oxford e produzida pela multinacional britânica-sueca AstraZeneca. O laboratório anunciou uma redução nas quantidades a disponibilizar à Europa. A União Europeia, em contrapartida, responde com o anúncio de que vai aumentar os controlos aduaneiros nas exportações das vacinas produzidas em solo Europeu. A medida não menciona diretamente o Reino Unido. No entanto, é tomada como retaliação a suspeitas de que a AstraZeneca terá desviado stock da vacina dirigido à Europa para o Reino Unido. A UE chegou a ameaçar a colocação de uma fronteira física entre a Republica da Irlanda e a Irlanda do Norte, mas a indignação de Londres, Belfast e Dublin inverteu essa intenção.

A presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, afirmou que não existe explicação plausível para o atraso no fornecimento das vacinas da AstraZeneca. O ministro da Saúde britânico, Matt Hancock, por sua vez, acusa a UE de protecionismo ao proibir a exportação das vacinas da Multinacional Americana Pfizer, produzida na Europa continental, para o Reino Unido. Entretanto, a Rússia promete 100 milhões da sua vacina à UE.

Fica patente que o mundo empresarial global não está desenhado para um mundo geopolítico de nacionalismos. O protecionismo, outrora descartado em prol da globalização, começa de novo a tomar forma.

O espetro de um movimento de vacina-nacionalismo para o qual o secretário-geral das Nações Unidas alertou está a tomar forma no velho continente. A Organização Mundial da Saúde afirma que estamos à beira de uma falha moral catastrófica, onde jovens saudáveis no Ocidente vão ser vacinados antes das equipas médicas na primeira linha do combate à pandemia em países em desenvolvimento.

Nunca é de mais recordar que hoje vivemos o período mais longo de paz na Europa e não restam dúvidas de que o projeto europeu foi o grande arquiteto desse período de paz. O Brexit abriu uma brecha nesse projeto com perdedores de ambos os lados e com consequências ainda por determinar. A luta pelas vacinas no período pós-Brexit levou Piers Morgan, jornalista sensacionalista britânico, a agradecer nas redes sociais a atitude da Comissão Europeia por ter unido a nação contra a UE.

Com a retórica em crescendo, e tal como no Brexit, não haverá vencedores mas sim perdedores dos dois lados nesta guerra comercial pelas vacinas.

Membro da Comissão Política do Volt Portugal

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