Os economistas alemães estão errados

O Conselho Alemão de Especialistas Económicos publicou um relatório de actualização das suas previsões dedicando uma caixa a refutar as críticas que várias instituições têm dirigido aos crescentes excedentes externos da Alemanha. (Em 10 de Fevereiro, escrevi aqui sobre o tema).

Os especialistas alemães contestam que os excedentes externos do seu país sejam um problema e que possam ser considerados um desequilíbrio económico. Sustentam que "só existiria um desequilíbrio macroeconómico se para um dado nível de preços a procura agregada, a qual é derivada da procura interna e da diferença entre a procura por exportações e importações, se desviasse significativamente da oferta agregada". O que consideram não ser o caso, uma vez que a economia alemã estará perto do pleno emprego, pelo que aumentar a procura interna só geraria um excesso de procura.

Consideram que o excedente se deve a factores temporários, como a política expansionista do BCE, que deprecia o euro, e recusam-lhe importância, pois que "as balanças de transacções correntes estão sujeitas a flutuações ao longo do tempo". E defendem que "a melhor maneira de reduzir o excedente externo alemão é através do aumento do potencial de crescimento", para o que aconselham medidas do lado da oferta.

Referem ainda que não está ao alcance dos decisores políticos poder actuar sobre as balanças de pagamentos, pois o saldo destas resulta das acções discricionárias de um largo número de agentes económicos.

A única coisa que se pode dizer da argumentação dos especialistas alemães, por muito pretensiosa que a afirmação possa parecer, é que ela é errada. E tanto assim é que não conseguiu sequer a unanimidade dos cinco membros do Conselho, pois que um deles, Peter Bofinger (de há muito um crítico da situação), dela se distanciou, desmontando-a numa declaração de "opinião divergente".
Vejamos os principais erros da argumentação. Primeiro, o fenómeno é tudo menos temporário, como aliás é "gritado" por um gráfico do próprio relatório que o mostra a crescer desde 2002. Parafraseando a popular canção, 15 anos é muito tempo para ser temporário. É, pois, um problema que se tornou estrutural e que é uma das maiores ameaças ao euro.

Segundo, não é a procura agregada que conta para avaliação dos desequilíbrios externos, é a sua composição. A relação entre a procura e a oferta agregadas é relevante para o equilíbrio interno (pleno emprego), mas para o equilíbrio externo o relevante é a composição da procura (entre interna e externa).

Apesar de estar em equilíbrio interno, a Alemanha é um caso típico de uma economia macroeconomicamente desequilibrada (pela vertente externa), revelador de uma insuficiente procura interna e de uma taxa de câmbio real subvalorizada (que induz "excessiva" procura externa líquida).

Necessita de uma terapêutica que combine aumento da despesa interna - via política fiscal - e revalorização da taxa de câmbio real (para refrear a procura externa). Como se consegue esta valorização num regime de câmbios fixos? Pelo simétrico do que a Alemanha recomendou aos países do euro com défices externos, ou seja, através de uma revalorização interna: aumentos salariais (temporariamente) acima da produtividade ou transferindo encargos da Segurança Social dos trabalhadores para as empresas. Sem alterar a composição da procura (i.e. sem a referida terapêutica), o aumento da capacidade de oferta, como propõem os especialistas, só prolongará o mesmo desequilíbrio, mas numa escala maior.

Terceiro, claro que os decisores políticos podem influenciar os saldos das balanças externas, como ensina uma extensa literatura económica e como têm provado inúmeros programas de ajustamento, incluindo os aplicados recentemente pelas euro-troikas.

Como argumentei no outro artigo, a Alemanha é um problema para o euro e o euro é um problema para a Alemanha (mas sem Alemanha não há euro). A Alemanha é um problema, porque o quadro conceptual dominante nesse país - e forçadamente transposto para a gestão do euro - não é compatível com o funcionamento de uma união monetária (entre Estados soberanos) e não é sequer compatível com a relevância económica da Alemanha nessa união.

O pensamento do establishment alemão está em franco desalinhamento com as correntes dominantes da doutrina económica e é muito marcado pela síndrome da "pequena economia aberta" (que a Alemanha não é!), considerando-se incapaz, por falta de escala, de afectar os equilíbrios dos outros (países, regiões ou o mundo), mas temendo que os seus equilíbrios sejam afectados pelas acções dos outros (muito maiores). Por isso, nunca antes aceitara amarrar a sua moeda às dos outros (Bretton Woods, SME, etc.), para não sacrificar o equilíbrio monetário interno (estabilidade de preços), preferindo o custo de uma moeda flutuante, a deixar que um câmbio fixo a fizesse importar a instabilidade dos outros.

Não tendo espaço para me alongar, repetindo apenas que num regime de câmbios fixos, se não houver simetria na assunção de responsabilidade pelos desequilíbrios externos, e pela sua correcção, o regime será enviesadamente deflacionário e potencialmente insustentável.

Enquanto a Alemanha não perceber isso, o euro estará em risco.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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