Sexo no comboio, discriminação da mulher e educação sexual

O vídeo viral sobre três jovens (ou jovens adultos) a manter comportamentos sexuais explícitos durante uma viagem de comboio tem sido sobejamente falado e dispensa quaisquer apresentações. Muitos viram até ao fim, outros tantos ficaram a meio e outros, ainda, denunciaram o vídeo. Alguns partilharam com amigos e não amigos. E depois existe aquela franja de pessoas que não se limitou a ver, apagar, denunciar ou partilhar. Tinham que fazer comentários depreciativos.

Antes de mais, manter comportamentos sexuais num local público poderá ser crime e, desse ponto de vista, os três envolvidos poderão tê-lo cometido. Isso partindo do pressuposto que estamos a falar de um comportamento consensual, assumindo, ainda, que todos tinham no momento a capacidade para prestar o seu consentimento informado.

Por outro lado, os referidos comportamentos foram filmados e divulgados, Outro crime. Quem o cometeu? Um terceiro, armado em voyeur e youtuber, ou um dos envolvidos, sedento de fama e protagonismo à custa do sexo? Não sabemos.

O que sabemos é que, aos olhos de muitas e muitas pessoas, a rapariga é uma puta e os rapazes isentos de mácula.

A rapariga é uma galdéria e uma desavergonhada, que se enrola com uns e outros daquela forma. Porque rapariga que se preze, mesmo que não permaneça virgem até ao casamento, vive uma sexualidade monogâmica e recatada.

Os rapazes de quem ninguém fala são, afinal, o espelho daquela que é ainda a visão da sociedade em relação ao homem. Machos garanhões que apanham o que vem à rede, pois claro, reféns da sua elevada testosterona e incapazes de lhe resistir.

E no meio de tantos comentários machistas que agridem aquela e todas as mulheres, esquecem-se do mais importante. Daquilo que realmente interessa. As diferenças gritantes que ainda persistem sobre como se olha para a mulher e para o homem na nossa sociedade, e também a ausência de uma verdadeira cultura de educação sexual.

No que à sexualidade diz respeito, as crianças e jovens crescem entregues ao Dr. Google e aos ditames dos amigos, sem uma verdadeira educação sexual. Nem na família, nem na escola. Porque a família não sabe como abordar o assunto, tem receio e pudor, vergonha e sei lá mais o quê. A escola, por seu lado, também ainda não encontrou um caminho sólido e consistente, de tão atacada que é, por parte dos pais e dos próprios professores. Ah, e tal, a disciplina não sei de quê, em que se fala de direitos e de aceitação das diferenças, e de sexualidade e género e coisas assim... é melhor os meninos não falarem sobre isso.

Pois. É melhor não falarem sobre essas coisas sexuais a aprenderem da pior forma possível. Potenciando o sexo despido de afectos. O sexo como moeda de troca, tantas vezes usado como forma de conduzir a sentimentos de aceitação e integração no grupo de pares.

Que este caso nos ajude a reflectir sobre as ideias que ainda persistem entre nós e que urge alterar. E que nos permita também reconhecer a importância da informação e reflexão, potenciando a hipótese de escolhas mais acertadas e conscientes.

Mais Notícias