O irresistível pinguim-de-adélia

O pinguim-de-adélia (Pygoscelis adeliae) é uma espécie de pinguim que habita a Antártida, e foi assim baptizado em homenagem à esposa do investigador que o descobriu, Jules d'Urville.

Estes animais são muito pequenos e, talvez por isso, esta é considerada a espécie de pinguins mais adorável e irresistivelmente fofa!

A sua época de reprodução ocorre durante o mês de Outubro e constroem os ninhos nas encostas rochosas, utilizando pedras. Tanto o macho como a fêmea tomam conta dos seus ovos, à vez, mantendo-os quentes e protegidos de possíveis predadores. Qualquer pequena pedra é muito importante, e são usadas também como galanteio ou até trocadas por alguns momentos de paixão!

Mas o que têm estes pinguins de tão especial, ao ponto de lhes ser dedicada uma crónica?

O pinguim-de-adélia, pela forma doce como interage com os seus pares, pelo cuidado que tem com os seus ovos e, mais tarde, com as suas crias e, ainda, pela partilha dos cuidados por ambos os pais, de forma coerente, que exercem uma verdadeira coparentalidade (de fazer inveja a muitos seres humanos!), dá o nome a um projeto inovador da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens1.

Chamamos-lhe, portanto, «Adélia - Projecto Parentalidade Positiva». Porque os cuidados não se medem aos palmos, este pinguim tão pequenino é, em boa verdade, um gigante da parentalidade positiva.

De acordo com a Recomendação Rec (2006) 19 do Conselho da Europa - Comité Conselho de Ministros, a parentalidade positiva é definida como «um comportamento parental baseado no melhor interesse da criança e que assegura a satisfação das principais necessidades das crianças e a sua capacitação, sem violência, proporcionando-lhe o reconhecimento e a orientação necessários, o que implica a fixação de limites ao seu comportamento, para possibilitar o seu pleno desenvolvimento».

O que implica, então, este conceito de parentalidade positiva? O que devem, ou não devem, os pais fazer para conseguir exercer uma verdadeira parentalidade positiva?

Em primeiro lugar, promover uma comunicação adequada e saudável com os filhos. Uma comunicação clara e coerente é a chave do sucesso de qualquer relação e a relação entre pais e filhos não é exceção. Implica falar de forma clara e com coerência entre aquilo que é transmitido verbalmente e não verbalmente. Do que adianta dizer uma coisa com palavras, quando, tantas vezes, os olhos, o tom de voz, a postura ou os gestos dizem exatamente o contrário?

Uma parentalidade positiva implica também saber resolver problemas de forma ajustada. Em todas as relações surgem problemas e a adequação de uma relação não se avalia pela existência ou inexistência de problemas, mas sim pela forma como estes são geridos.

Saber resolver problemas envolve uma correta identificação do problema e das várias alternativas de resolução, a identificação de vantagens e desvantagens de cada alternativa e a antecipação de possíveis consequências. Só então conseguiremos identificar a alternativa mais adequada e definir um plano para a operacionalizar. E não, não existem alternativas que apenas acarretem vantagens.

Nas relações pais e filhos importa também saber definir estratégias para lidar com os comportamentos adequados. Quer isto dizer que não devemos dar atenção apenas aos comportamentos desadequados das crianças. Se queremos que os comportamentos desejáveis se tornem mais frequentes, duradouros e intensos, é fundamental saber reforçá-los. Privilegiar o reforço social (elogio) ou com atividades que a criança goste e, se possível, que envolvam toda a família. Quando foi a última vez que elogiou o seu filho, só porque sim?

E o que fazer face aos comportamentos desadequados da criança? Pois, se queremos exercer a nossa parentalidade de uma forma positiva, então temos mesmo de eliminar as estratégias de natureza punitiva. E por punição não se entenda apenas a punição física, mas também outros comportamentos que são psicologicamente agressivos. Como dar ordens sem explicação, «porque aqui mando eu» e "é não, porque não". Ou, ainda, humilhar ou ameaçar a criança de qualquer forma, intimidando-a ou fazendo-a sentir que não é amada, desejada ou aceite de forma incondicional.

No fundo, pretende-se ajudar os pais a encontrar estratégias alternativas para lidar com os comportamentos negativos como, por exemplo, ignorar, reforçar comportamentos que sejam incompatíveis com aqueles que se pretendem eliminar ou, ainda, retirar privilégios como consequência da sua exibição.

As crianças precisam ainda de limites, de um amor firme com balizas que as orientem e encaminhem. Ouvir um "não", ou até muitos "nãos", não traumatiza as crianças. Contrariamente ao que tantos pais pensam, crescer com um modelo parental de baixo controlo gera mais dificuldades de regulação emocional e comportamental, maior imaturidade e dificuldade na relação com os outros.

Promover a autoestima da criança é também uma forma de exercer uma parentalidade positiva. Ajudar a criança a identificar os seus pontos fortes e áreas de competência, valorizando-se por aquilo que consegue fazer, mas, acima de tudo, por quem é.

Por fim, importa também partilhar momentos lúdicos e de lazer. Momentos em que brincadeira e divertimento sejam as palavras de ordem, sem que exista, necessariamente, uma agenda de aprendizagens associada a essas atividades. Brincar livremente, deixando fluir a capacidade simbólica da criança, é de uma riqueza sem tamanho. E quando essas brincadeiras são partilhadas em família... tudo ganha uma nova cor!

O nosso pinguim-de-adélia tem já um primeiro material a circular pelas famílias de Portugal! Um "quantos-queres" (quem é que ainda se lembra como se faz?) dedicado às várias dimensões da parentalidade positiva. E não é que as crianças de hoje, tal como as do nosso tempo, adoram o "quantos-queres", mesmo com tecnologia zero?

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