A cultura não precisa de drinks

A pandemia veio acentuar as diferenças sociais e o fosso entre aqueles que têm uma situação sócio económica estável e os outros, os que que vivem na precariedade e no limbo, sem saberem o dia de amanhã. E estes últimos precisam de muitas coisas, é certo. Mas não de drinks.

A frase da ministra da Cultura caiu que nem um balde de água fria ou, melhor, um drink gelado nas dificuldades de quem as sente na pele. Os que tentam diariamente sobreviver. Isso mesmo, falamos de sobrevivência quando temos profissionais das artes perfomativas (desde artistas, companhias, técnicos, promotores, agentes, etc.) sem dinheiro para pagar a renda da casa ou as contas da água. Quando temos pessoas que mal suportam as despesas dos filhos e, quando ultrapassam a vergonha e o estigma, pedem pela primeira vez na vida ajuda alimentar.

A empatia é uma capacidade que a muitos faz falta. Diria mesmo que devia ser elevada a património mundial, de tão rara e especial que é.

Os que vivem no conforto e na segurança do ordenado ao final do mês esquecem-se que muitos outros têm um ordenado que depende de não sei quantas variáveis. E que, em tantas e tantas situações, nem de ordenado se pode chamar, mais ainda num sector onde as medidas de apoio extraordinário às empresas pouco se aplicaram, pela própria natureza do mesmo.

A empatia é uma capacidade que a muitos faz falta. Diria mesmo que devia ser elevada a património mundial, de tão rara e especial que é. Falamos da capacidade em sair do nosso espaço e redoma e tentar olhar os outros com outras lentes. Que é como quem diz, tentar ver as coisas sob outra perspectiva. Descentrarmo-nos. E, por conseguinte, tentar sentir como o outro sente. Não como EU acho que deve ser visto e sentido, mas como o OUTRO poderá ver e sentir.

Vamos tentar.

Imagine que trabalha.... sei lá, por exemplo, como músico para uma agência de artistas. Isso mesmo, é um músico. Com a pandemia, toda a sua agenda de espetáculos desapareceu e foi cancelada.

Foi mandado para casa.
Não é lay-off nem nada que se pareça. É mandado para casa.
Rendimentos? Zero.
Regalias? Zero.
Subsídios? Zero.
Tudo zero, um zero bem redondo.

O que lhe vale? As poupanças (quase zero também, sendo que vive no limbo e na incerteza desde que se lembra), o apoio da família (muito importante, mas que também não chega) e... os amigos? Estão igualmente desesperados. O Estado? Pois, não estou bem a ver os apoios que vou ter em tempo útil...

A casa tem de ser paga. A água, a luz, o gás e a comida também. Os seus filhos têm as necessidades próprias das crianças.

Neste contexto, o que acha de beber um drink de fim de tarde?

Repito, a empatia é uma capacidade que a muitos faz falta. Mesmo.

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