O primeiro dia do fim da Google?

Precedente, há. Justiça norte-americana mandou "partir" a telefónica Bell em sete "Baby Bells" nos anos 80. Guardando as devidas distâncias, as diferenças não eram assim tantas. E no entanto...

O processo por monopólio contra a Google, movido esta terça-feira pelo governo norte-americano (e mais 11 estados, para já, outros poderão juntar-se), é histórico independentemente do desfecho que venha a ter.

No mínimo, demonstra como mesmo na supostamente ultraliberal sociedade americana há gigantes que crescem tanto que têm, pelo menos, de se chatear um bocadinho em vir "cá abaixo" dar respostas perante a lei.

No máximo, poderá fazer com que fiquemos todos um bocadinho melhor de cada vez que navegamos na internet. Mas infelizmente sou demasiado realista para isso (já aqui voltamos).

Comecemos pelo primeiro ponto, sublinhando alguns aspetos sem ingenuidade:

1. O processo sai a duas semanas das eleições presidenciais, pela mão do procurador-geral nomeado por Donald Trump William Barr (ainda que seja um dos seus adjuntos que dá a cara);

2. É apoiado pelos procuradores de 11 estados, todos republicanos (mais poderão juntar-se, no futuro, mas para já são estes);

3. É conhecida a "aura" progressista -- "liberal" na terminologia americana -- de Silicon Valley, que é assim atacada no seu âmago, num processo que irá seguramente durar anos e potencialmente terá repercussões, muitas delas imprevisíveis, um pouco por toda a indústria;

Ou seja, ir agora atrás da Google é politicamente uma jogada que agrada ao eleitorado de Trump -- na lógica do homem que tem força para combater "os poderosos" -- e, ao mesmo tempo, é uma decisão que não pode verdadeiramente ser criticada por Joe Biden.

Mas independentemente da motivação tática por trás da decisão, será que existem muitas dúvidas acerca da justeza da mesma?

A União Europeia, por exemplo, não as teve. Desde 2010 que a UE já lançou três processos diferentes de antimonopólio contra a gigante norte-americana, relativamente ao seu motor de busca, à sua publicidade e, o mais recente, ao sistema Android, e já a multou em 8 mil milhões de euros.

A Google recorreu desta multa, tendo-a pago em parte.

Seja como for, os processos na UE demonstram bem que há muita matéria para discutir em tribunal.

Apesar da grande tradição laisser passer da sociedade e do sistema judicial norte-americano, os tribunais daquele país não são de todo estranhos a processos antimonopólio, Muito pelo contrário. E não costumam brincar em serviço no que toca a esta matéria -- precisamente porque os monopólios são o anátema do capitalismo e da livre concorrência em que se baseia todo aquele país.

Ainda na área da tecnologia, ficou para a história o processo por monopólio contra a Microsoft, em que o governo dos EUA acusou a empresa de Bill Gates de domínio no mercado dos computadores pessoais e de práticas ilícitas -- abuso de posição dominante entre outras -- para eliminar a concorrência.

O caso teve início em 1998, foi arguido perante juiz em 2001 e terminou num acordo extrajudicial, no qual a empresa foi obrigada a fornecer a terceiros alguns dos seus códigos, nomeadamente de interfaces, e passou a ter de facilitar a instalação de outros programas de navegação na internet.

Durante o julgamento, Bill Gates arguiu que de um momento para o outro, neste negócio, nada garantia que não viesse a surgir uma nova plataforma, um novo sistema, que fosse adotado em massa pelos consumidores. O argumento caiu em orelhas moucas.

Seis anos depois, surgiu o iPhone, da Apple. Um ano depois disso, o Android, de um consórcio do qual faz parte a Google. Entre os dois, hoje, 3,5 mil milhões de pessoas no mundo têm um destes aparelhos (74% Android, 25% iOS).

Desde então os telefones passaram a ser "smart" e a internet passou a estar no nosso bolso. E as pesquisas no motor de busca do Google não pararam de aumentar. Hoje, tudo somado (mobile, desktop, etc.), 92,26% do total das buscas na internet são feitas pelo Google. Só o líder da Coreia do Norte consegue números tão monopolistas, perdão, absolutos...

Poderá pensar-se que a possibilidade de se vir a "partir" a Google em pequenas empresas é algo impensável. E provavelmente nunca acontecerá. Convém no entanto lembrar que há precedente, nos Estados Unidos, para tal decisão.

Em janeiro de 1982 -- sim, era a idade da pedra das telecomunicações, mas não esquecer, por favor: 92,26% -- a Bell era há 100 anos a "companhia dos telefones" norte-americana -- na realidade já era um conjunto de 27 empresas do grupo AT&T que compunham à época o sistema Bell, mas eram geridas (e funcionavam) como uma só empresa.

Sim, era o tempo em que os telefones tinham "cauda". E só serviam para falar. O processo judicial que acabou nesse dia 8 de janeiro culminou na separação da empresa em sete "Baby Bells", autónomas, o que abriu o mercado à concorrência.

Depois, toda a indústria evoluiu e inovou-se.

Evolução e inovação é algo que o mercado continua a precisar. Sempre. E apesar de continuar a ser imbatível na eficácia dos seus resultados, a verdade é que o motor de busca Google é cada vez menos um espaço agradável para os seus utilizadores.

O melhor exemplo foi esta terça-feira escrito por um jornalista do Washington Post. Vou usá-lo, sem vergonha de estar a copiar (as coisas boas copiam-se, eu pelo menos assumo...):

Entre no campo de pesquisa do Google e escreva T-shirt

Quando é que lhe aparece a primeira ocorrência de busca? Consegue distinguir entre a publicidade deles e a busca? Reparou que não lhe aparece em momento algum, simplesmente, a definição de T-shirt (a mim pelo menos não aparece...)

Isto não é um motor de busca pensado para o utilizador. Aquela empresa da ideia do "Do no evil", da página branca simples em que fundou a sua marca, que foi capa da Time, que fazia "Moonshots" e que, segundo o jornalista da revista, até seria capaz, quem sabe, de conquistar a morte, um dia, tem nitidamente hoje outras preocupações. Como vender produtos e manter a posição no mercado.

Se ao menos a ameaça de vir a ser partida aos bocadinhos levasse a Google a pensar menos em vender T-shirts e mais em "não fazer mal" e a voltar aos "Moonshots"... Convenhamos, dinheiro não lhes falta!

Mas francamente não acredito que isso aconteça. Nem uma coisa... nem outra.

Nem tão pouco que seja, de facto, partida.

Já agora, viram alguma T-shirt gira?

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