Novos Macs. Fazer o novo igual ao velho é marketing ou falta de imaginação?

Desde a saída do líder de design da Apple, há um ano, que nada muda nos formatos dos produtos saídos de Cupertino. Há quem diga que é de propósito...

"If it ain't broken, don't fix it". O ditado americano -- ou uma qualquer variante do mesmo -- tem sido nas últimas horas presença nos blogues e sites especializados em tecnologia, após a Apple ter apresentado os seus novos computadores portáteis.

Isto porque dizer que "se funciona, para quê mudar" é a única forma de defender o facto de a empresa de Cupertino não ter alterado um milímetro no design já marcadamente datado das suas máquinas MacBook Air, MacBook Pro e MacBook Mini. E, como é mais ou menos habitual na maioria dos sites "especializados", não convém criticar muito a "sacrossanta" marca da maçã -- ou ainda se arriscam a não ser convidados para a apresentação seguinte (ou, vade retro!, a não receber a nova unidade para testes).

Resultado? Sim, os Macs 2020 são por fora exatamente iguais aos Macs 2019. Sim, mantêm-se as margens grandes em redor dos ecrãs (que já em 2019 mais pareciam saídas de 2017) e coisas como ecrãs táteis ou suporte para canetas eletrónicas permanecem modernices de jovens com iPads (ou computadores Windows....). Nem sequer há um acabamento novo para atrair os fashionistas -- um qualquer platino-rosado-com-nuances-de-meia-noite (TM) a custar o dobro do preço -- a que a marca também já nos tinha habituado.

Então não serão estes mais alguns inequívocos sinais de que a empresa de Cupertino, primeiro sem Steve Jobs (cujo desaparecimento, como já aqui defendi, levou a decisões que lhe fizeram perder algumas das suas características únicas) e, desde junho de do ano passado, sem o seu (para muita gente) génio do design Jonathan Ive, está sem conseguir reinventar-se e surpreender?

Nada disso, assegura em coro a media "especializada". O meu exemplo preferido é de hoje, no canal de fãs, perdão, de especialistas do The Verge. Na peça cujo título exterior é "Os novos Macs parecem chatos de propósito", explica-se como a marca não mexeu no design das máquinas só para dar ao utilizador oportunidade de perceber como os novos processadores M1, criados pela própria empresa, são tão superiores aos anteriores Intel. O consumidor que troque de Mac de um ano para o outro fica exatamente com o mesmo hardware -- que já conhece e ama -- mas vai ver como é tudo muito melhor e mais rápido.

Francamente, nem sei por que raio a Apple tem um departamento interno de marketing e relações públicas. Com imprensa assim...

Há no entanto uma parte em que o The Verge e companhia terão razão: apesar de ser ainda cedo para o afirmar com certeza. Pelo menos potencialmente, os novos processadores da Apple têm de facto um enorme potencial.

Dito de outra forma: se o leitor não se importa de andar com um laptop com um design a jogar para o antiquado, não chegou ainda à fase psicótica em que eu já entrei de instintivamente tentar controlar um ecrã normal com os dedos, achando que devia ser touchscreen (já me aconteceu até com um televisor...), e se o sistema operativo da Apple não lhe faz impressão, poderá mesmo valer a pena pensar em comprar uma coisa destas.

Isto porque estes processadores, utilizando uma arquitetura ARM (portanto, diferente dos da Intel que a Apple estava a usar até agora e semelhante aos usados nos telemóveis), prometem coisas como "instant on", ou seja, o computador liga-se imediatamente ao abrir a tampa; um consumo de bateria muito reduzido, o que levará a uma autonomia muito maior; e sistemas de arrefecimento passivo, sem ventoinha, pelo que os computadores são silenciosos.

Como sempre, na apresentação, a Apple não forneceu dados concretos da performance dos novos processadores (sempre muito transparentes estes rapazes!), dizendo apenas que o M1 tem "o dobro do desempenho" dos processadores mais recentes dos laptops, sem especificar exatamente com o que estava a comparar.

Dizem também que o novo Air é 3,5 vezes mais rápido do que o Air do ano passado e a potência gráfica é cinco vezes superior. Já o Pro, afirmam, é 2,8 vezes mais potente do que o antecessor.

Há aqui alguns riscos, no entanto.

Saltar de uma arquitetura Intel para uma arquitetura ARM pode trazer alguns problemas de compatibilidade com alguns programas.

A Microsoft está há mais de um ano a lidar precisamente com isso. Mas utilizando uma abordagem totalmente inversa.

Ao contrário do habitual secretismo de Cupertino, que adota um total desenvolvimento "In house" saindo com um produto alegadamente "acabado", a marca de Redmond tem andado num processo de migração progressivo contando com a colaboração da comunidade de desenvolvedores através do projeto "Windows on ARM".

Atualmente, este plano encontra o seu expoente máximo no Surface Pro X, um portátil 2 em 1 com processador ARM, "Instant on", superfino, permanentemente ligado à internet como um telemóvel. Problema: (ainda) não dá para instalar alguns tipos de programas. A Microsoft diz que continua a trabalhar no problema -- todos os meses há novidades neste campo --, mas ainda não é a mesma coisa do que ter, por exemplo, um Surface Pro 7.

A Apple diz que a experiência com estes Macs será exatamente igual às dos antigos. É provável. Para já porque não há -- nunca houve -- tanto software para Mac como para Windows, pelo que a quantidade de programas a recompilar é muito mais reduzida. Depois porque todo o controlo sobre o software que a empresa faz -- incluindo, sobre o software de terceiros -- é de tal forma apertado que lhe permitirá garantir logo à partida um nível de compatibilidade grande quando chegam ao consumidor.

Afinal, foi assim que eles conseguiram a fama do "it just works".

Isto é, até aparecer a famosa bola da morte a rodar no meio do ecrã... e depois crasha como todos os outros.

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