Donald Trump é a razão de eu ter a certeza de não haver extraterrestres na Terra*

*Ou por que é que a aparente loucura do ex-general israelita até pode ter base científica.

A entrevista é tão delirante que correu mundo esta semana, praticamente à velocidade da luz, pela internet.

Não houve um único jornal ocidental, generalista ou especializado, que não noticiasse a entrevista do ex-general israelita Haim Eshed, que durante 30 anos foi chefe de Segurança do Programa Espacial do seu país, e veio agora garantir que os extraterrestres existem, estão a trabalhar com os EUA e Israel numa base secreta em Marte e até já celebraram com a Humanidade uma espécie de Federação Galática.

Por mais fora deste mundo (trocadilho pobrezinho eu sei, desculpem...) que estas declarações possam parecer, com um bocado de boa vontade eu até poderia dar o benefício da dúvida ao antigo militar de 87 anos. A existência de vida fora do planeta Terra parece uma inevitabilidade, tendo em conta a quantidade de estrelas existentes só na nossa galáxia, a Via Láctea -- pelo menos 400 mil milhões --, sendo que se pensa que a maioria tenha planetas na sua órbita. As mais recentes estimativas apontam para que haja pelo menos 400 mil milhões de planetas na galáxia.

Claro que a maioria destes planetas não poderão ter vida como a conhecemos. Ou serão gigantes gasosos, como Júpiter ou Neptuno, ou serão demasiado quentes, como Mercúrio, ou demasiado frios, como Marte à noite. Mas alguns poderão estar numa zona "temperada", como a Terra, a que os cientistas chamam carinhosamente Goldilocks, em homenagem à menina do conto de fadas que entra na casa dos três ursinhos e vai provando as sopas: uma está a escaldar, outra está gelada, até que a terceira está "mesmo perfeita".

Segundo as últimas estimativas da NASA, a partir de dados recolhidos pelo observatório espacial Kepler, haverá na Via Láctea 40 mil milhões de planetas rochosos na zona "Goldilocks". Destes, uns 11 mil milhões estarão em órbita de uma estrela do tipo do nosso Sol.

Com números tão inimaginavelmente grandes, parece de facto quase impossível que só haja vida aqui. E mesmo que apenas uma minoria dessas formas de vida ultrapasse, por exemplo, a fase de organismos microscópicos; e mesmo que apenas uma pequena fração desses consiga evoluir para formas de vida "superiores"; e mesmo que apenas uma fração desses desenvolva "inteligência" e tecnologia; e mesmo que apenas uma fração desses consiga ter civilização capaz de não se autodestruir num cataclismo nuclear ou semelhante e parta à conquista do espaço, era de esperar que a galáxia estivesse a vibrar de vida.

Esta é uma simples e ligeiramente errada descrição da famosa equação de Drake, que visa calcular, através de uma quantidade de variáveis, o número de civilizações avançadas numa galáxia, partindo dos pressupostos acima referidos. A mesma é popularmente descrita por Jodie Foster no filme Contacto, num diálogo com Matthew McConaughey, em que a cientista explica ao religioso como a inexistência de vida em qualquer outro planeta seria, no mínimo "um terrível desperdício de espaço".

O problema é que a cientista no filme faz mal as contas. Quando ela diz que "se uma estrela num milhão tiver planetas, se destas uma num milhão tiver vida, se uma num milhão tiver vida inteligente...", feito o cálculo, o resultado disto seria um número negativo! Muuuuito negativo (dava 0,00000004 planetas com vida inteligente....)

O físico Neil deGrasse Thyson tem muito mais graça do que eu a demonstrar isto mesmo:

Conta o físico Kip Thorne, no livro The Science of Interstellar, que o próprio Frank Drake estava com ele a ver a ante-estreia do filme, em Los Angeles -- Contacto é baseado no único livro de ficção de Carl Sagan -- e que quando esta cena passou Thorne ficou irritadíssimo. Estava mesmo na disposição de ir falar com os produtores para que eles a alterassem em futuras edições do filme. Mas Frank Drake não se mostrou nada preocupado e até o dissuadiu. "É apenas um filme", disse-lhe. "Pelo menos passa a ideia".

Prossigamos.

Se calculando a equação de Drake de forma correta chegamos à conclusão de que não existirem civilizações extraterrestres seria de facto um "terrível desperdício de espaço", então onde raio estão elas? O físico ítalo-americano Enrico Fermi sintetizou a questão no início do século (muito antes de Drake ter escrito a sua equação, em 1961), e hoje chamamos-lhe "o paradoxo de Fermi".

Basicamente: se tudo o que observamos no universo (nomeadamente a sua dimensão e a idade) indica que deveria haver vida por todo o lado, por que não a encontramos?

Há muitas tentativas para responder a esta pergunta. Algumas mais comuns:

- A vida é algo muito raro, afinal, pelo que é quase impossível encontrar outra civilização na vastidão do espaço;

- A vida não é assim tão rara, mas a vastidão do espaço é ainda assim um desafio intransponível;

- A vida é até relativamente comum mas a maioria das civilizações tendem a autodestruir-se quando passam da infância tecnológica e como tal não chegam a um estágio em que sejam capazes de contactar outras;

- A vida é comum, mas existe uma espécie de "código de conduta galático" (uma "Prime Directive" tipo Star Trek) que faz com que espécies ainda pouco desenvolvidas (como nós) não sejam contactadas ou que o sejam de forma cautelosa (é este, no fundo o argumento de Contacto; e é isto, no fundo, o que diz o ex-general Haim Eshed. Neste sentido, as palavras do antigo militar não estão totalmente longe daquilo que pensam alguns cientistas);

- A vida é comum mas existe um imperativo de sobrevivência galática que faz com que todas as civilizações se escondam umas das outras (SPOILER: é este o muito inteligente argumento da trilogia de livros Remembrance of Earth's Past do autor chinês Liu Cixin, que vai ser transformada em série para a Netflix, com o título The Three Body Problem pela mesma dupla que adaptou Game of Thrones).

Conclusão, ninguém sabe. Mas a verdade, sem dúvida, está algures, como dizia alguém. E, francamente, quem pode dizer verdadeiramente que não é a que disse o senhor general Haim Eshed?

Há uma coisa a que os filmes de Hollywood nos habituaram muito mal -- e como vimos no exemplo acima, eles falham quase sempre no que toca à ciência: o papel dos cientistas. Tendem a ser homens solitários, a trabalhar num laboratório ou observatório, que têm as respostas todas.

Nada mais errado. Os cientistas precisam trabalhar em conjunto, a trocar ideias e informações, em constante debate.

A frase que mais os entusiasma: "não sei".

Na ficção popular, o cientista mais bem representado de que me lembro é Victor Bergman, interpretado pelo excelente ator britânico Barry Morse (1918-2008) na série Espaço: 1999. Ao longo de toda a primeira temporada o homem parece nunca saber nada, sempre que lhe aparece um problema. Pois, está certo. O que lhe surge são coisas que nunca ninguém viu. Desconfiem sempre de "médicos" ou "cientistas" que têm todas as respostas.

Eu não acredito minimamente no que disse Haim Eshed.

Nem sequer é por não ser obviamente impossível, no mundo em que aconteceu o Watergate, manter secreto um programa espacial capaz de levar homens para uma base secreta em Marte, com os lançamentos que isso implicaria a serem detetados inevitavelmente pela Rússia, pela China, pelo Japão, pela Austrália, etc., que eram capazes de ficar, no mínimo, curiosos.

Ou muito menos de não vermos, literalmente em lado nenhum, qualquer vestígio da tecnologia avançadíssima que esses nossos companheiros da Federação Galáctica estariam a partilhar connosco. Afinal, eles presumivelmente percorreram dezenas ou milhares de anos-luz para cá chegar, certo? Deram-nos o quê, o iPhone? Quero o meu dinheiro de volta, por favor!

Mas até estaria na disposição de dar algum benefício da dúvida ao senhor -- e não acreditar apenas que ele não está só a querer arranjar dinheiro fácil com o livro que está prestes a lançar -- não tivesse ele proferido uma frase que lhe retirou qualquer ponta de credibilidade (inserir risos aqui).

Citando a notícia do DN: Diz Haim Eshed que Trump tem conhecimento disto e esteve quase a revelá-lo ao mundo, mas foi persuadido a não o fazer porque "a humanidade ainda não está pronta para conhecer a verdade".

Ó senhor general. Extraterrestres e bases secretas em Marte, Federações Galáticas e "Prime Directives", ainda vá lá. Agora esperar que Donald Trump consiga guardar um segredo destas dimensões , isso é que está para além de qualquer imaginação.

Houvesse fotos de extraterrestres em Marte, em Vénus, na Área 51 ou em Fort Knox e já estavam todas no Twitter.

Quer dizer... se calhar há. Mas é um segredo que Trump não sabe de certeza!

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