Aposto que Steve Jobs ia odiar o iPhone 12. Desde logo porque aquilo destrói cartões (e não é pelo preço)

Já lá vai o tempo em a Apple tinha os gadgets com o melhor design do mercado. Agora, só mesmo os religiosos da marca o defendem. Mas nem é este o pior defeito do novo modelo do iPhone apresentado na semana passada, que inclui algumas características que dificilmente passariam pelo crivo do ultraexigente fundador da maçã.

Começo com uma confissão, em nome da total transparência: nunca fui um dos fãs incondicionais de Steve Jobs, como mais há na imprensa nacional e internacional que se dedica a cobrir assuntos de tecnologia de consumo. Francamente, sempre o achei um pouco mais "forma" do que "substância", o que não faz muito o meu estilo.

Dito isto, reconheço totalmente a importância do cofundador da Apple para esta indústria e a forma como foi fundamental para transformar a sociedade em que vivemos. Enquanto os computadores eram paralelepípedos cinzentos ele estava a fazê-los em plástico às cores; enquanto andávamos a escrever nos ecrãs com canetinhas eletrónicas ele pôs-nos a desenhar com o dedo em cima do vidro. E sim, ele não inventou verdadeiramente nenhuma das tecnologias que permitiram qualquer um dos seus maiores êxitos comerciais, mas teve a capacidade de "empurrar" a indústria no sentido da sua visão.

Para mim, esse foi o maior contributo de Steve Jobs para o mundo. Mais do que o Mac, o iPod ou o iPhone, foi o de ter tido a capacidade de levar os engenheiros - de hardware e de software - a fazerem a tecnologia mais simples, mais humana. Às vezes tanto que até irrita - apps que só servem para uma única coisa? Um telefone em que (nas suas palavras) um só botão já é de mais?! Mas isto é mesmo para gente limitada? Pois, se calhar ele tinha razão, a julgar pelo êxito da coisa...

Com a sua morte em 2011 e a passagem dos destinos da empresa para Tim Cook, a Apple tornou-se muito mais uma companhia como as outras. Naturalmente que Cook precisou de fazer "sua" a marca da maçã, e sair da sombra do gigante antecessor - o que, menos de uma década volvida e com as vendas do iPhone em novos máximos, é indiscutível que conseguiu fazer -, mas pelo caminho algo se perdeu.

A primeira baixa foi a aura de existir apenas um iPhone. Por questões comerciais, obviamente, Cook fez como os outros fabricantes e começou a lançar vários modelos do iPhone no mesmo ano (como o SE) ou variantes "aditivadas" (como o Plus ou o Plus Max).

Depois, foi-se perdendo a simplicidade.

Aqui a questão é um pouco mais complexa. Desde logo porque a tecnologia é naturalmente complexa - e é esse precisamente o problema de fazê-la chegar às pessoas em geral, em especial àquelas que não são naturalmente vocacionadas para estas coisas - e é extremamente difícil destilar a experiência do utilizador a um ponto em que qualquer criança de 7 anos consiga usar o produto.

Muitas vezes nos antípodas deste processo encontramos a eterna rival Microsoft. Um exemplo: o bloco de notas OneNote. Tanto na versão para telemóvel como para computador é, provavelmente, a melhor app do género do mercado. Aquilo faz tudo e mais alguma coisa. É inclusivamente possível importar lá para dentro páginas inteiras da internet e anotá-las. Vídeos, links, animações... tudo sincronizado pela nuvem (OneDrive), acessível em qualquer parte do mundo em qualquer ecrã. O programa é maravilhoso, quer seja para fazer uma simples lista de compras ou uma extensa apresentação anotada sobre o futuro da humanidade. Deixo a pergunta: quantas pessoas da sua família a usam?

Porquê? Porque para conseguir fazer tanta coisa não pode ser tão básica quanto, sei lá, o Evernote. Ou seja lá o que for que o leitor usa, que seguramente lhe serve perfeitamente. Ótimo. Quer dizer que foi bem desenhado, na sua perspetiva. No fundo, é apenas e só isso que é preciso.

Regressemos à Apple. Quantas mais funções os telefones têm de fazer maior a complexidade dos mesmos, isto é evidente. O desafio é fazer que isso se note o menos possível. Os engenheiros da Apple conseguiram-no até certo ponto, mas há opções difíceis de perceber. Outras que, ouso dizer, traem mesmo o espírito de Jobs.

Na primeira categoria estão a divisão no topo do ecrã para as câmaras e sensores frontais e a teimosia de não incluir sensor de impressão digital sob o display.

O "buraco" a dividir o ecrã no topo, que permitiu trazer o display praticamente a toda a superfície do aparelho, foi introduzido no iPhone X, em 2018, e na altura a questão foi assumida como algo temporário - era só enquanto a tecnologia não se desenvolvesse o suficiente para permitir fazer desaparecer o inestético espaço preto.

Aparentemente, dois anos não foram suficientes para qualquer avanço nesta área. Ou simplesmente a Apple não esteve para isso. Até porque, como acontece habitualmente, o que primeiro se estranha - muito se escreveu sobre aquilo à época! - depois entranha-se e, objetivamente, já ninguém se chateia com aquela coisa e ela mantém-se no iPhone 12.

Quanto ao sistema biométrico de impressão digital, igualmente com o X a Apple adotou um sistema de reconhecimento facial (muito semelhante ao da Microsoft, diga-se) que, dizem eles, torna o Touch ID desnecessário. O que não é obviamente verdade - há várias situações em que poderia dar mais jeito usar o dedo para desbloquear o aparelho e atualmente já existem sensores de colocar sob o ecrã absolutamente fiáveis (algo que não acontecia há dois anos). Mas a marca da maçã não foi por aí em 2020.

Entretanto, no reino do Android, há fabricantes a equipar aparelhos com estes sensores e a fazer telefones com ecrãs que ocupam todo o telefone (e que se dobram, etc.). Mais uma vez, se queremos mesmo inovação e imaginação, não é para a maçã que devemos olhar. Mas isso é outra conversa.

A mais recente opção que me arrisco dizer que trai o espírito de Jobs é o "botão escondido" que a última versão do iOS introduziu. Desde a versão 14, pode bater duas ou três vezes nas costas do telefone para fazer uma captura de ecrã, ou aumentar o volume, etc.

A função está escondida em System / Accessibility / Touch. Depois aparece-lhe uma lista com as operações que podem ser ativadas quando faz dois ou três toques nas costas do telefone.

Novas funções implicam mais complexidade...

Regressando ao iPhone 12 e por que razão acho que Jobs iria odiar o aparelho.

Além de ser basicamente igual ao anterior. Além de continuar a ter aquele design industrial com vértices vincados e margens laterais que dão ao telefone um aspeto profundamente datado...

O telefone tem potencialmente a capacidade de destruir cartões bancários (e outro tipo de equipamentos, como chips RFID) e aparentemente ninguém pensou nisso?

A coisa foi apresentada como um plus para o utilizador - sem falar, claro, no potencial de vender novos gadgets. Nas costas do telefone vem um íman, que passa a funcionar com acessórios específicos para segurar o aparelho.

O sistema MagSafe, assim se chama, permite por exemplo "agarrar" o iPhone a um carregador sem fios de forma firme, ou até a um suporte de automóvel facilmente.

Só que, como tudo o que é magnético, este sistema pode simplesmente destruir as bandas magnéticas (e danificar os chips) dos cartões de crédito ou de acesso a empresas, por exemplo.

Já nesta semana, aliás, a própria Apple incluiu esta advertência (AQUI:)

"Don't place credit cards, security badges, passports, or key fobs between your iPhone and MagSafe Charger, because this might damage magnetic strips or RFID chips in those items. If you have a case that holds any of these sensitive items, remove them before charging or make sure that they aren"t between the back of your device and the charger."

Mas pronto, tal nunca vai acontecer, porque afinal as pessoas são adultas e têm noção daquilo que fazem. Certo?

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