É legal matar um animal de 15 em 15 minutos?

Olho para a fotografia do casal a posar, rodeado por cadáveres de javalis, veados e gamos. São 540 animais mortos e duas pessoas que sorriem para a câmara.

Ele e ela, de pé, estão abraçados. O abraço é um gesto carinhoso com que a humanidade manifesta afeto e estima. Eles estão felizes e indiferentes à contraditória barbaridade do retrato que protagonizam.

Frente aos pés do par de caçadores orgulhosos jazem, em primeiro plano, seis javalis, corpo inerte, cabeça pacificada, por bala, a repousar na erva.

Atrás, em filas estendidas quase até ao limite da visão, alinham-se, ordenadamente, centenas de veados e gamos mortos. Para não se estragarem as enormes galhadas - as hastes de orgulho macho com que lutaram pela vida - estes animais têm o focinho enfiado numa armação de ferro, que lhes levanta o crânio.

Um veado ou um gamo morto na caça não tem direito a deixar cair a cabeça: pode ser que alguém a corte pelo pescoço, a embalsame e, finalmente, pendure o troféu numa parede por cima da lareira da casa de campo de um caçador vaidoso, disposto a pagar tal serviço. A preservação das hastes é uma última afirmação, nesta chacina, do império humano sobre o mundo animal.

A fotografia não documenta o cheiro. A morte, porém, tem cheiro. 540 cadáveres de animais mortos exalam, necessariamente, o odor do início do processo de putrefação que marca o fim de qualquer vida de carne e osso.

Atrás dos cadáveres, atrás do casal feliz, no entanto, lá ao fundo, a vida continua, metódica: trabalhadores de fato macaco verde, luvas e galochas debruçam-se sobre os corpos, talvez a examiná-los para verificar a possibilidade de doenças, talvez a colocar-lhes selos de identificação, talvez a cortar alguns para serem cozinhados, talvez a prepará-los para os enviar ao matadouro onde serão desmanchados, talvez a arranjá-los para os caçadores os levarem para casa, talvez a sangrá-los, talvez a limpá-los, não sei... Seja o que for, nenhum dos humanos presentes, em trabalho ou lazer, parece incomodar-se com o cheiro da morte... E o casal feliz? Gostará desse perfume?

Talvez tenha sido o par abraçado e sorridente a partilhar a sua própria fotografia nas redes sociais. Nesse possível desfasamento entre a exibição do regozijo de um feito venatório, que nenhum verdadeiro caçador deveria orgulhar-se, e o escândalo indignado na opinião pública pela matança sem critério, renovou-se o processo político habitual: apareceu o ministro do pelouro a indignar-se e a mandar fazer as inspeções e os inquéritos previsíveis em casos semelhantes.

Escapam-me, porém, algumas perguntas.

Se nesta carnificina participaram apenas 16 caçadores - como foi publicitado pela empresa organizadora - isto significa que, em média, cada um matou 33 bichos. Se admitirmos que a caçada, nesse dia 17 de dezembro, a partir do momento em que se começou a disparar armas, durou oito horas, isso indica que cada caçador conseguiu matar um animal a cada 15 minutos. Como é que este frenesim homicida pode ser permitido pela lei?

João Pedro Matos Fernandes, o ministro do Ambiente, veio dizer que era preciso alterar a lei para, por exemplo, obrigar a que cada montaria seja previamente comunicada ao Instituto da Conservação da Natureza e Florestas (ICNF).

Acontece que, apenas há dois anos, o primeiro governo de António Costa aprovou o decreto-lei 24/2018 que altera o regime jurídico da conservação, fomento e exploração dos recursos cinegéticos. Quem é que se esqueceu de incluir na lei essa básica exigência?

Quantas montarias se fazem e quantos animais de caça maior se matam, por ano, em Portugal. Alguém sabe?

Se a matança de 540 animais foi feita, como prevê a Portaria 185/2018, para corrigir a densidade populacional da tapada (a única razão que poderia justificar a dimensão da montaria), era necessário pedir ao ICNF, previamente, uns 600 ou 700 selos para identificar cada bicho que viesse ser abatido. Esse pedido foi feito? E quem forneceu os selos não achou estranho? É habitual aparecerem pedidos desta dimensão?

Quanto pagaram estes caçadores para terem o prazer de chacinar, sem critério nem utilidade, centenas de animais grandes num único ato? Mil euros? Dez mil euros? Que negócio macabro está organizado em torno desta crueldade? Quantos há, semelhantes, nas 1500 zonas de caça turística, promotores da crueldade humana, indiferentes às boas práticas cinegéticas?

Dos 1700 hectares (17 quilómetros quadrados) da Herdade da Torre Bela, na Azambuja, onde este morticínio ocorreu, 775 estão destinados a um projeto de construção de uma central de painéis solares.

A câmara da Azambuja (PS) já deu uma primeira aprovação (com os votos contrários de PSD e PCP) a esta central, bem como a outra de menor dimensão, em Vila Nova da Rainha. O ministro do Ambiente, pelas declarações de ontem, parece também apoiar a ideia.

Não há sítios melhores para colocar estas centrais fotovoltaicas? Tem de se destruir enormes quantidades de árvores; eliminar milhões de plantas e flores; matar, deslocalizar ou destruir o habitat de milhares de animais; diminuir o espaço de Reserva Ecológica Nacional para meter, no lugar da natureza, 7,75 quilómetros quadrados de metal, silício e vidro? Isto não é a defesa do ambiente mais estúpida do mundo?

Olho uma última vez para a fotografia partilhada no facebook do casal de caçadores felizes rodeado pela imensidão de cadáveres de animais. Depois do incêndio na Serra da Agrela em dois canis ilegais, que vitimaram 100 cães e gatos, é a segunda vez este ano que se levanta em Portugal um movimento de indignação sobre maus tratos a animais.

Há gente capaz de pagar para ter o prazer de matar um animal de 15 em 15 minutos. Felizmente, há cada vez mais gente que se revolta contra tamanha crueldade.

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