Uma experiência emocional muito maior que os números

Penso agora nos atletas. No prazer de estarem presentes na maior das competições, mesmo que no fim os seus sentimentos contrastem entre a alegria e a desilusão

"É para ficar". Aquele grito, pleno de raiva e determinação, de Telma Monteiro após o yippon à francesa Automne Pavia, que lhe abriu o caminho para a medalha que perseguia há quatro Jogos Olímpicos, é para mim uma das imagens inesquecíveis do Rio 2016. Um daqueles momentos que nos arrepiam pela força que representam. Nestes últimos 17 dias experimentei mais vezes essa sensação. Aconteceu durante a festa ensurdecedora dos adeptos brasileiros no Maracanã, a maior manifestação de alegria a que já assisti, quando Neymar (logo ele, a única grande estrela do futebol que não prescindiu de vir aos Jogos) marcou o penálti que deu o primeiro título olímpico ao Brasil. Aconteceu também durante a magistral exibição do argentino Del Potro frente a Djokovic, num jogo de ténis em que o argentino, massacrado por lesões e contra todas as adversidades, bateu o número 1 do Mundo, deixando-o em lágrimas por cair logo na 1.ª ronda do torneio. Depois, no momento em que o super campeão Michael Phelps saltou para a piscina e nadou como um louco para colocar os Estados Unidos na frente da estafeta 4x100 metros livres, confirmando o primeiro dos seus cinco ouros no Brasil; na final dos 100 metros, quando Bolt arrancou mal e fez uma recuperação brutal para passar a meta a sorrir, em primeiro e sem concorrência à vista; e aconteceu ontem na maratona masculina quando o iraniano Moradi cortou a meta de joelhos, totalmente esgotado mas resistindo, com coragem, até final.

Outros guardarão na memória momentos diferentes. Não faltam grandes façanhas: as cinco medalhas de Katie Ledecky na natação; as outras cinco de Simone Biles na ginástica; o recorde mundial de Wyade van Niekerk nos 400 metros ou o ouro de Rafaela da Silva, garota da favela da Cidade de Deus, no judo. A lista é interminável.

Penso agora nos atletas. No prazer de estarem presentes na maior das competições, mesmo que no fim os seus sentimentos contrastem entre a alegria e a desilusão. Lembro-me do sorriso nervoso e incontrolável da dinamarquesa Pernille Blume, no topo do pódio dos 50 metros livres da natação, a ver subir a bandeira do seu país. E das lágrimas de Fernando Pimenta quando falhou a conquista da medalha em K1 1000, após uma longa lista de sacrifícios a que se sujeitou desde os longos meses que passou em estágios, isolado de tudo, às inúmeras manhãs de inverno a treinar na água gelada do rio Lima. Se para quem assiste de fora os Jogos são uma experiência emocional, para os atletas esse sentimento deve ser multiplicado por 100. Os resultados, as estatísticas, têm o seu peso, mas este não é superior à própria experiência de participar ativamente nesta competição. E isso não é conversa da treta.

É por isso que o balanço final da participação dos atletas não pode ser feito somente a olhar para um medalheiro. No Rio 2016, tal como em outros Jogos anteriores, voltaram a dar excelentes exemplos de superação, dedicação, competência e desportivismo. Mais do que as estruturas que ficam para a cidade carioca, que mesmo num contexto social e político muito complicado conseguiu organizar-se devidamente e fechar os Jogos com um capital de confiança renovado, é esse o maior legado que fica do Rio 2016: um património imaterial capaz de inspirar milhões de pessoas por todo o Mundo. É essa a magia dos Jogos. É isso que devemos aos atletas.

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