A vitória que não foge

Portugal está na final do Europeu com todo o mérito. O apuramento foi obtido com uma vitória (lá se foi o rótulo da seleção dos empates...) e sólida exibição frente ao País de Gales. Temos uma equipa competente, confiante e, sobretudo, muito empenhada em conquistar um troféu que o futebol português já merece. No entanto, esta crónica não fala do futebol dentro das quatro linhas. Fala de adeptos e do papel (talvez decisivo) que tiveram a motivar os jogadores, principalmente após os jogos menos conseguidos no arranque da competição. Fala de um Portugal de esplanadas cheias à hora do jogo, filas no supermercado para as compras de última hora, dos gritos de golo a cortarem o silêncio do bairro, dos amigos que nunca falavam sobre futebol e agora discutem as arrancadas de Renato Sanches, o poder de elevação de Ronaldo ou os truques de Rui Patrício para defender penáltis. Fala de emigrantes. Em Barcelona, no Caravela, de Sagres e Super Bock na mão, dezenas a cantar A Portuguesa em coro antes do apito inicial, em pleno bairro catalão de Sant Antoni. Em Paris, em frente à TV, com a camisola do capitão vestida, o pré-adolescente que nasceu em França mas que se emociona com as vitórias de um país que também é seu, enquanto vai desenferrujando o português na companhia dos pais. Em Montreux, Suíça, após o jogo, os portugueses que se juntam a festejar e a testar a paciência dos suíços com o barulho ensurdecedor dos motores das suas motas. Fora da Europa, também é assim. No Canadá, no Brasil, em Angola, em Timor. Vejam as fotos que Ramos -Horta partilhou das ruas de Díli...

A conversa de que o futebol não conta para nada faz lembrar a de um tecnocrata europeu obcecado pela décima orçamental. É tempo de o reconhecer: a união em redor do jogo, uma seleção, um país, tem um valor imaterial que não se explica com equações e que não deve ser menosprezado. Uma união que também é notória no grupo às ordens de Fernando Santos, o primeiro a dizer que Portugal ia chegar ao fim do Europeu. O selecionador cumpre a palavra e só regressa a casa no dia 11. Há muito mais de 11 milhões de portugueses que esperam que traga o troféu. É só o que falta para a festa ser completa, sendo certo que a união em redor da seleção nacional já é por si uma vitória. E esta não vai fugir.

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