Porque bocejamos?

Tenho passado os últimos meses num mundo enfadonho. Leio pessoas - penso sempre que são pessoas - que me descrevem o mundo nos poucos caracteres do Twitter. Dizem todas, mais ou menos, o mesmo.

A repetição, neste caso, não é um defeito. É o feitio do trabalho. Não vos quero maçar muito com isto, mas explico: se um senhor - porque penso, primeiro, que se trata de uma pessoa? - escreve na sua página qualquer coisa contra, digamos, emigrantes e, logo depois, em dois minutos, responde a outras seis pessoas com a mesma frase. A repetição torna-se, não diria interessante, relevante. Não tanto pelo que diz, mas sobretudo por o dizer daquela maneira repetitiva. E rápida.

Agora pensem neste senhor do Twitter - acreditamos que são pessoas porque queremos percebê-las? - numa folha Excel com outros milhares de senhores e senhoras - ou queremos que sejam pessoas, para podermos confiar na sua humanidade? - em que cada um tem um link. Seguir o link é o meu trabalho.

Não tem nada que ver com aquela história do arco-íris. Ou com aquela outra de Paris, da praia debaixo da calçada. Não, no fim de cada link há outra coisa.

Só viajo, nesta história, por fronteiras virtuais: eles cabem todos no meu computador, estejam na Polónia, na Itália, na Alemanha, na França ou em Espanha. Estejam onde quer que não saibamos. Dizem todos o mesmo, não sei se já me queixei. Que a Europa devia ter fronteiras (eles, que estão no Twitter), que os emigrantes não deviam entrar (eles que entram no meu computador), que estamos a perder a tradição cultural de outrora (eles que fazem hashtags). Não querem o islão nem apreciam o Papa Francisco, por ser delicado. Dizem-se nacionalistas mas são internacionalistas no seu método. E escrevem isto tudo em várias línguas. Algumas delas eu tenho de traduzir, para perceber. E a memória dessa culpa fica-me registada a mim no omnisciente Google.

Eu ando nisto e pergunto-me várias vezes, desculpem-me por isso, se não seria melhor que estes senhores do Twitter fossem máquinas. Alguns serão, outros não.

Perguntar-me coisas destas salva-me. Nos cadernos de Leonardo da Vinci, que nasceu na Toscana antes de Matteo Salvini ser ministro do Interior, há várias perguntas que me fascinam. "Porque é azul o céu?"

"Porque bocejamos?" é uma delas. Eu repito-a e evito ir ao Google consultar a resposta. Ainda me calhava em sorte um destes senhores do Twitter ter um blogue, e o algoritmo do Google valorizá-lo (por ser "viral", como se diz), e lá aparecer o que já sei que está na ponta da língua desta gente. Bocejamos porque isso faz parte de um plano de Soros, ou foram os migrantes que trouxeram uma doença subsariana, ou porque as mulheres agora estudam. Juro-vos que não exagero. Há quem publique - não melhora se soubermos que são apenas máquinas, porque alguém as inventou, e estas não pretendem voar, como as de Da Vinci - textos que explicam como a Terra é plana, como as vacinas apenas existem para nos tornarmos débeis, para que uma invasão de migrantes nos venha substituir.

Walter Isaacson é um dos muitos biógrafos de Leonardo da Vinci e descreve-o assim: "Era curioso sobre tudo e era curioso apenas pela curiosidade, não por qualquer juízo sobre a sua utilidade." É disso que precisamos, cada vez mais, quando se alardeiam certezas tolas.

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