Namorar o mundo

Não sei ao certo, devia ter uns 16 ou 17 anos, fim do liceu, primavera. Um grupo de colegas meus do Liceu Pedro Nunes começava a sair e a dar-se com as raparigas do Liceu Maria Amália. Estava a mudar e mudaria muito nos anos seguintes, mas naquele ano o Pedro Nunes era ainda um liceu quase só de rapazes e o Maria Amália um liceu quase só de raparigas e a tradição era ainda a de os rapazes do Pedro Nunes irem para a porta do Maria Amália esperar as raparigas.

Eu não. Eu era do futebol (que adorava jogar mais do que torcer por uma equipa), das bandas desenhadas e das teorias sobre se havia vida noutros planetas que discutia com mais um dois dos meus amigos. Mas os outros estavam a desertar e a passar para o mundo dos namoros e das conversas parvas com as raparigas.

De início não ligámos, eu e os meus fiéis companheiros da resistência, não percebíamos como é que os nossos colegas trocavam jogos de futebol no parque e conversas incríveis sobre o futuro da humanidade por umas conversas patetas com umas miúdas.

Depois chegou o verão e eu comecei a vê-los, da janela do meu quarto, em Campolide, a passar para apanhar a camioneta para a praia e a regressar ao fim da tarde, eles e elas a namorar e a beijar-se.

Os dias passavam, as aulas tinham chegado ao fim e em breve, em agosto, as famílias sairiam para férias e o bairro haveria de ficar sem aquela agitação adolescente como se fossem pássaros que tivessem migrado para outras paragens.

Mas naqueles dias eu observava-os da minha janela, por vezes cruzava-me com eles na rua e começava a reparar numa das raparigas em particular e cada dia mais. A minha timidez não me deixava mais do que trocar uma palavras com os meus amigos rapazes, uns olhares desajeitados com as raparigas, ignorar em particular a rapariga de quem gostava e voltar para casa a amaldiçoar a minha falta de jeito.

De volta ao meu quarto, sem grande vontade de ler ou fazer o que quer que fosse, acabava por me sentar a escrever. Eu sempre tinha escrito, princípios de histórias, argumentos para bandas desenhadas, um ou outro poema, anotações de ideias para escritos futuros. Era muito influenciado pelo que lia ou pelos
filmes que via, mas nada era muito consequente.

Nesse verão começou a mudar. Decidi começar a escrever a sério. Passei a andar sempre com um bloco de notas e um lápis e escrevia, escrevia e escrevia. Todo o tipo de textos: versos, prosas, listas, planos, ideias, observações, diários inacabados.

Continuava a observar os grupos a ir e a vir da praia e comecei a cruzar-me mais com eles como se fosse por acaso. Quando começaram a perguntar-me se não queria ir com eles para a praia, comecei por dizer que tinha uma série de coisas para fazer, mas, ainda antes de agosto, acabei por ir, evidentemente, com o meu bloco de notas.

Veio agosto como uma mudança de capítulo e em setembro, antes do regresso às aulas, eu já falava com todas as raparigas.

O bloco e o lápis eram o meu superpoder contra a kryptonite da timidez. A pergunta vinha sempre: "Então, o que é que andas a escrever agora?", e eu dizia nem tanto o que andava a escrever mas sobretudo o que tinha na ideia escrever. A partir daí, conversava doutras coisas, do que me viesse à cabeça e percebi que estava a namorar como os outros.

No fim do ano, a rapariga de quem eu gostava foi a primeira a quem eu dei os meus primeiros poemas reunidos, presos por um cordel. Ridículos, como todas as cartas de amor. No verão seguinte ela foi a minha primeira namorada.

A escrita fez acontecer o meu primeiro namoro, a escrita foi o meu primeiro namoro.

E quando o primeiro namoro acabou foi a escrever que me consolei.

Sempre que estive perdido, sem saber o que fazer, sentei-me e escrevi.

Ao ler os escritores que venerava, ao ver filmes que admirava, ao ouvir as músicas de artistas que me inspiravam, sempre sonhei ser como eles e poder inspirar alguém. Mas, em comparação com eles, a minha falta de talento deixava-me sempre num desespero mudo, a esgaravatar em terra seca à procura da pepita de um qualquer ouro que desconfiava não estar lá.

Em qualquer caso, a escrita sempre me abriu um caminho. Mesmo quando sabia que o que escrevia não era nada de grande valor, escrevia. Escrever engana-nos. Escrever é um bom truque para fazer de conta que percebemos o mundo. Escrever é sempre tomar umas notas para não nos esquecermos de coisas importantes que não têm importância nenhuma. E vice-versa. Escrever é vice-versa.

Escreve-se no meio do azar para dar sorte.

Escrever foi sempre a minha salvação.

Quando fiquei triste, quando perdi pessoas, quando me senti sozinho, sentei-me e escrevi.

Escrever é rezar a um deus desconhecido.

Escrever é como pensar alto em voz baixa.

Escrever é uma forma de ler. É ler-nos a nós próprios à medida que vamos escrevendo e ainda mais à medida que vamos reescrevendo, apagando, voltando a escrever.

Escrever é como namorar com as palavras. Connosco. Ou melhor: ​​​​​​​escrever é namorar o mundo.

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