O próximo genocídio?

Se há lição que os Grandes Lagos nos ensinaram é que de pequenos países podem vir problemas gigantes. Basta pensar no Ruanda em 1994, e no genocídio que fez 800 mil mortos entre a população tutsi e os hutus moderados. Hoje, é o vizinho Burundi, com idêntica composição étnica, a correr riscos de uma repetição da história, ao ponto de a União Africana advertir que não "permitirá outro novo genocídio" na região dos Grandes Lagos e ameaçar enviar tropas mesmo sem o aval das autoridades de Bujumbura. A ONU também já avisou estar a ponderar pôr capacetes-azuis no Burundi se se agravar a crise causada pela ideia do presidente Pierre Nkurunziza de se candidatar (e entretanto ganhar) um terceiro mandato.

Dez milhões de habitantes e um território que não chega a um terço do de Portugal. Terras férteis e uma densidade populacional muito superior à média africana. Uns 80% de hutus, o resto tutsis, uma minúscula comunidade twa (pigmeus). Efémera colónia alemã, depois belga entre a Primeira Guerra Mundial e a independência em 1962. Língua africana comum, francês e inglês oficiais, maioria de católicos. É este um resumo do Burundi, que também se aplica ao Ruanda, apenas um pouco mais populoso.

Ora o que mais distingue hoje o Burundi do Ruanda é o primeiro ter escapado ao genocídio de 1994, iniciado quando o avião em que viajavam os presidentes de ambos os países, ambos hutus, explodiu antes de aterrar em Kigali. De repente, começou a carnificina, que durou entre abril e julho, até aos rebeldes da Frente Patriótica Ruandesa, na sua maioria refugiados tutsis vindos do Uganda, assumirem o controlo e porem os genocidas em fuga. Em paralelo, a guerra civil instala-se no Burundi, causando 300 mil vítimas até 2005, mas sem nunca atingir a dimensão exterminadora que marcou o vizinho.

Devido à experiência histórica recente distinta, também os dois países decidiram abordar de forma diferente a questão étnica, que no Ruanda está ausente do discurso político, enquanto no Burundi existe até nas quotas na política e nas forças armadas. No Ruanda, o tutsi Paul Kagame impôs-se como o pacificador, liderando uma reconciliação nacional que não deixou de punir os criminosos. No Burundi, o hutu Nkurunziza também colhia elogios sobre o modo como gerira o pós-guerra, mas de repente as suas ambições de perpetuação política trouxeram um ciclo de violência, com um golpe falhado, manifestações reprimidas a tiro, eleições boicotadas, opositores mortos e 200 mil refugiados.

De início, pareceu mais uma luta pelo poder entre antigos aliados (o chefe golpista, o general Godefroid Niyombare, é também hutu) do que o regresso dos ódios étnicos, mas agora a realidade é mais assustadora. Um editorial do Le Monde chamava a atenção para o discurso anti-tutsi de altas figuras do regime. O jornal francês até citava o ministro da Segurança, Alain-Guillaume Bunyoni, a relembrar aos tutsis que são minoritários e que "se as forças da ordem falharem, temos nove milhões de cidadãos a quem basta dizer "façam algo"". Soa a déjà vu.

Os tutsis, com tradições guerreiras, terão chegado à África Central há cerca de 600 anos, vindos da Etiópia. Impuseram-se aos hutus, agricultores, que aceitaram os novos senhores a troco de proteção. Durante o período colonial, apesar de séculos de convivência terem fundido em parte as duas etnias, os belgas promoveram a continuidade da supremacia tutsi, que só acabou após a independência, quando a maioria hutu finalmente se apoderou do controlo do Estado.

Em 1994, o mundo descobriu, horrorizado, esta história mista de rivalidade e coexistência étnica. Em 2015, arrisca-se a redescobri-la. Não haverá desculpas desta vez para a inação da comunidade internacional (ONU e União Africana), que na época pareceu não entender o que se passava no Ruanda e assistiu depois do genocídio a repercussões do conflito que chegaram a mudar o regime no gigante Zaire, de novo batizado Congo, e a provocar uma guerra africana que envolveu uma dezena de países.

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