O povo brasileiro não é biruta não!

Mais segurança e menos corrupção. Maior desenvolvimento também, se possível. É isto que muitos dos que votaram em Jair Bolsonaro querem, "colocar o Brasil no lugar que ele merece", como disse o presidente.

E querem tanto que lhe desculparam frases e atitudes, sobretudo nesta campanha presidencial, suficientes para destruir qualquer carreira política não fosse o Brasil estar tão partido entre petistas e antipetistas e Bolsonaro ter conseguido ser o campeão destes últimos, por falta de comparência dos partidos do centro, que apresentaram candidatos fraquíssimos ou nem isso. Basta lembrar que o PSDB recandidatou Geraldo Alckmin, que quando enfrentou Lula da Silva em 2006 conseguiu o feito de perder votos da primeira para a segunda volta das presidenciais.

"O povo brasileiro não é biruta não!", disse-me ontem uma brasileira a viver em Lisboa. Há muito tempo que não ouvia a expressão, que aliás só deve ser conhecida em Portugal por quem era miúdo nos anos 80 e lia, importadas do Brasil, as revistas do "recruta biruta".

A palavra, usada neste sentido, quer dizer qualquer coisa como meio louco ou apalermado e isso não é coisa que se possa dizer de nenhum povo, muito menos do brasileiro.

Se votou como votou foi em desespero, alguns dirão por esperança, mesmo que o currículo de Bolsonaro como deputado não fuja à mediania, o seu partido seja pequeno e com escassos quadros e o desafio de governar com uma Câmara dos Deputados híper fragmentada seja enorme sempre.

E se do outro lado estava Fernando Haddad, com um currículo mais convencional, a verdade é que nunca durante a campanha o professor universitário e ex-prefeito de São Paulo soube sair da sombra de Lula, o antigo presidente preso por corrupção mas admirado por milhões de brasileiros.

Há um ano, em entrevista a João Almeida Moreira, correspondente do DN, Bolsonaro prometia um governo de ministros militares se fosse eleito presidente, dando razão a quem o etiqueta como saudoso da ditadura militar.

Dos quatro nomes já conhecidos para ocupar pastas há dois, um general reformado na Defesa e um tenente-coronel na Ciência e Tecnologia, mas neste caso também podia ser apresentado como um astronauta.

Claro que há ainda o vice-presidente Hamilton Mourão, mais um general reformado ao serviço de Bolsonaro, ele próprio um capitão, o que foi tudo menos uma desvantagem nesta corrida. Mas muito mais importante do que estes homens de farda (ou que recentemente a deixaram de vestir) será o ministro da Fazenda, Paulo Guedes, cuja tarefa será convencer os investidores estrangeiros que o Brasil é um bom destino para o seu dinheiro.

Quem ouviu o discurso de Bolsonaro após serem conhecidos os resultados terá notado que falou muito da propriedade e de como esta é sagrada.

Pode ser uma mensagem de advertência para o Movimento dos Sem Terra, sempre tão acarinhado pelo PT, mas foi também uma forma de tranquilizar o empresariado global, que tem todas as razões para apostar num país que é tanto um exportador agro-alimentar, líder até na carne bovina ou no café, como um grande produtor de aviões e de automóveis. Estamos a falar da oitava economia mundial.

Esse discurso de Bolsonaro, pontuado por inúmeras referências à Bíblia, o que não costuma cair mal junto da maioria dos brasileiros, foi marcado também pela promessa de um governo decente, respeitador da democracia, da liberdade e certamente da Constituição. No geral, foi um discurso inclusivo, em contraste quase total com o que foi dizendo nos últimos meses.

Duvido que tenha convencido minimamente aqueles que o abominam, mas foram palavras certamente reconfortantes para aqueles que, como quem governa Portugal, têm de garantir que as boas relações históricas vão prosseguir e nunca defenderiam uma ostracização do presidente brasileiro, até porque foi eleito pelo seu povo e um país é sempre mais do que o seu líder ocasional.

Mas se tivemos todos que ouvir Bolsonaro na hora da vitória, também convém que este ouça os outros. Todos aqueles que não pertencem a uma minoria de extremistas que também o ajudaram a ser eleito.

Mauro Paulino, presidente do Data Folha, dirigiu um tweet muito pertinente a Bolsonaro, relembrando o futuro presidente (toma posse a 1 de janeiro) que todas as sondagens e estudos mostram que "maioria da população a ser governada é de mulheres, não tem pele branca, é economicamente ativa, possui baixa renda familiar, condena ações antidemocráticas, diz que a homossexualidade deve ser aceita por todos. Prefere a democracia".

É verdade mesmo: o povo brasileiro, tenha ou não votado em Bolsonaro, não é biruta não!

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