O Magrebe é já aqui

Num recente discurso, Sarkozy elogiou Marrocos, criticou a Argélia e mostrou-se preocupado com a Tunísia. Há razões para duvidar da perspicácia do ex-presidente francês, e agora candidato a regressar ao Eliseu, sobre a evolução do Magrebe, não só porque representa os interesses da velha metrópole como porque foi ele próprio responsável pelo caos num dos países da região, essa Líbia que mandou bombardear. Mas, pensando bem, acaba por fazer um diagnóstico plausível do que se passa no Sul do Mediterrâneo. E sobretudo do momento político de cada um dos três países passados cinco anos sobre a Primavera Árabe, que começou na Tunísia mas alastrou mais para Oriente (o Maxerreque) do que para Ocidente (o Magrebe, em árabe).

Fruto das mudanças abruptas dos últimos anos, Mohammed VI de Marrocos, descrito como um jovem rei quando subiu ao trono em 1999, faz hoje quase figura de decano entre os líderes do mundo árabe, não porque seja o mais velho, mas porque com o derrube do líbio Kadhafi, do tunisino Ben Ali, do egípcio Mubarak e do iemenita Ali Saleh desapareceu toda uma geração de governantes. O único verdadeiro dinossauro árabe é agora o sultão Qabus de Omã, que governa desde 1970. Ora, Mohammed VI tem seguido a fórmula inteligente de manter as rédeas do poder deixando a sociedade marroquina ir ganhando espaços de liberdade. No tempo de Hassan II, descrevia-se essa tática como democracia musculada, no fundo a possibilidade de competição política, e até de liberdade de imprensa, desde que os tabus monarquia, islão e integridade territorial (leia-se Sara) não fossem violados. Entretanto, a democracia marroquina progrediu e o próprio monarca teve de se resignar a aceitar um governo liderado pelos islamitas moderados, um pouco como no final da vida o pai deu posse a um socialista.

O prémio pela estabilidade é Marrocos continuar a receber todos os anos milhões de turistas (10 em 2015) e de constar como o segundo destino dos investimentos estrangeiros em África, o que significa que a economia se comporta bem. Os 5,1% de crescimento do PIB em 2015 são encorajadores, mesmo que escasso para um país que ainda lida com gritantes desigualdades sociais.
Já o caso da Argélia surge como mais complicado e resulta do fim anunciado dos dois fenómenos que permitiram sair da guerra civil dos anos 1990: o pragmatismo de Bouteflika e a alta cotação do petróleo. Chefe da diplomacia argelina quando o país era admirado mundo fora por ter expulso o colonizador francês, Bouteflika foi a aposta dos militares para gerir uma política de amnistias que permitisse aos grupos armados islamitas baixar as armas. E assim desde 1999 foi sendo reeleito presidente, a última das vezes em 2014, data também da sua última aparição pública, especulando-se que aos 79 anos esteja gravemente doente. A saída de cena provável de Bouteflika abre uma era de incertezas, mesmo que seja certo que a tradicional aliança entre os generais e a FLN, ex-partido único, seja para manter. Também questionável é a capacidade do Estado para manter os generosos subsídios sociais, dado que a renda petrolífera caiu a pique. Com o crude em alta, o PIB do maior país de África duplicou na era Bouteflika, mas isso pouco diz aos jovens desempregados.

E chegamos à Tunísia, que por razões históricas é também o país árabe com mais bases para construir a democracia. Os atentados bem que tentam desestabilizar o novo poder, em que laicos e islamitas moderados convivem, e o facto de o presidente Essebsi ter 89 anos não tranquiliza em termos de continuidade. Mas com uma economia mais diversificada do que a dos vizinhos, e também uma sociedade mais educada, a Tunísia, se apoiada, tem condições para o sucesso.
Portugal, esse, não pode ficar indiferente ao Magrebe. É demasiado próximo. Basta notar que entre as três capitais mais próximas de Lisboa estão Rabat e Argel.

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