Lula 2022

Não falta muito para o Brasil ter uma daquelas datas em que todos os balanços são feitos: 7 de setembro de 2022, dia do bicentenário da proclamação de independência por D. Pedro, o herdeiro do trono português que preferiu ser imperador brasileiro. Ora, há uma possibilidade, não tão remota assim, de o presidente nessa altura ser Lula da Silva. Basta para isso que queira tentar um terceiro mandato em 2018; necessita também, claro, de vencer essas eleições, o que exige limpar-se o quanto antes das acusações de corrupção que nos últimos tempos têm vindo de todo o lado, manchando o nome de um dos mais admiráveis políticos da história brasileira.

Lembremos o Brasil que Lula deixou em 2010 a Dilma Rousseff, a sua delfim no Partido dos Trabalhadores e em 2014 reeleita presidente: o gigante lusófono era então a sétima potência económica mundial, tendo entrado no top ten já com Lula no poder; a economia crescia a 7,5% por ano, só atrás da China; e as desigualdades sociais diminuíam a olhos vistos. Na época, houve até uma sondagem que dava 87% de aprovação ao presidente, batendo recordes de outros líderes mundiais, como o sul-africano Nelson Mandela, o americano Franklin Roosevelt ou o francês Charles de Gaulle.

O Brasil de hoje é diferente. A economia está em recessão. O entusiasmo cedeu lugar à divisão. A classe política surge desacreditada, o que podia não ser novidade se não fosse o próprio Partido dos Trabalhadores ter deixado de ser visto como diferente. Dilma, sobretudo, perde em todos os sentidos, a começar pela comparação com Lula. Aliás, não será exagero dizer que a sua reeleição foi conseguida muito à custa da entrada do ex-presidente na campanha eleitoral, mobilizando então as massas de brasileiros que viram a sua vida melhorar graças aos programas sociais do governo de esquerda. Fora de alcance ficaram, porém, as novas e velhas classes médias, que tinham aderido ao Partido dos Trabalhadores quando este associava aura de honestidade a provas de competência, fazendo do Brasil um país mais próspero, menos fraturado entre ricos e prósperos, e mais moderno.

Voltemos a Lula. É admirável o homem. Nasceu na pobreza, mal estudou, foi metalúrgico, a seguir líder sindical e depois candidato presidencial três vezes derrotado. E não desistiu. Em 2002 foi eleito presidente, o que é impressionante. Não há muitos casos de alguém que venha tão de baixo e chegue ao topo. O eletricista polaco Lech Walesa será outro exemplo, e dos bons. Já o venezuelano Nicolás Maduro, que até foi condutor de autocarros, não conta neste campeonato - é uma criação de Hugo Chávez.

Avancemos até 2022. Seja Lula ou não o presidente, esperemos que haja motivo para celebrações. Da soja ao gado bovino, dos automóveis aos aviões, do turismo à música, ao Brasil não faltam áreas em que dá cartas, seja na economia seja na cultura, e já não é preciso esperar pelo futebol para os brasileiros terem um motivo de orgulho no país. Na hora desse balanço, há muitos créditos a dar, desde logo a Pedro I, que através da perpetuação da monarquia conseguiu evitar que o Brasil seguisse o exemplo da América espanhola e se fragmentasse em duas dezenas de países, e a José Bonifácio, cientista nascido em São Paulo e formado na Universidade de Coimbra, que soube transformar o Brasil independente num verdadeiro Brasil brasileiro. Mas entre os muitos nomes que merecerão ser lembrados terá de estar o de Lula.

Este homem, que o mundo aplaudiu na época, soube provar que justiça social e desenvolvimento económico não são incompatíveis. E assim conseguiu que os brasileiros sonhassem, aspirassem a mais. Só por isso Lula merece um lugar na história, mesmo que hoje a sua popularidade seja mínima e as sondagens indiquem que a haver eleições presidenciais perderia para Aécio Neves, o rival de Dilma em 2014.

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