Há quem veja Assad como o salvador

Aquilo que relata Robert Fisk sobre a Síria, e como em partes dela Assad é olhado como o salvador, vem de um repórter veterano, daqueles tão experientes que ninguém acredita que o britânico esteja prestes a fazer 70 anos e ainda ande em guerras. E o que relata Fisk, à medida que acompanha a ofensiva em Aleppo do exército sírio, apoiado no terreno por milícias iraquianas e lá em cima por aviões russos? Que em Nubl e Zahra, duas aldeias cercadas pela Al-Nusra há três anos, os xiitas festejam a sua libertação, assim como a de cem famílias sunitas que preferiram permanecer do que viver sob o jugo dos jihadistas, ligados à Al-Qaeda e pouco melhores do que o Estado Islâmico. Para os xiitas, esses, não havia outra opção a não ser resistir. Para os fanáticos que abundam nas fileiras rebeldes, a ponto de combaterem outros rebeldes, os xiitas são infiéis, não apenas o ramo minoritário do islão. Ou se convertem ou são mortos, como tem acontecido na Síria e no Iraque a cristãos e yazidis.

Citemos um pedaço da reportagem de Fisk, publicada nesta semana no Independent: "O chefe da polícia, Rakan Wanous, mantém registo meticuloso das mortes em Nubl e Zahra e gravou as ameaçadoras chamadas telefónicas que recebeu das forças da Al-Nusra que cercam as duas aldeias. Wanous tinha também a cargo outras aldeias que caíram para a Al-Nusra. Sim, diz ele desolado, os telefonemas vinham da aldeia sunita vizinha de Mayer. "Um dia disseram-me que vinham massacrar-nos e eu disse-lhes que esperaria para ver. Noutra ocasião, ameaçaram-nos com um duche de armas químicas.""

Este chefe da polícia pertence também a uma minoria, os alauitas, ramo do xiismo. O presidente Assad é um deles, famosos pelos olhos azuis e cabelo louro, características que reforçam a lenda (ou a má fama) de serem descendentes dos Cruzados. Acontece que Wanous é o único alauita da aldeia. A sua missão não foi proteger os correligionários mas sim salvar aqueles que se mantiveram fiéis a uma ideia de Síria diversa, como aquela que, apesar dos abusos de Assad, existia até 2011.

Fisk é importante nesta análise porque dedicou a vida à região. No livro A Grande Guerra pela Civilização explica que foi em abril de 1976 que o seu jornal de então, o Times, o desafiou a ser correspondente no Médio Oriente. Quem já leu o colosso traduzido pelas Edições 70 saberá que o repórter recebeu a missão quando passava uns dias em Porto Covo, descansando da cobertura do período revolucionário em Portugal. Antes tinha andado pela Irlanda do Norte. Como conta, prometeram-lhe "boas histórias, muitas viagens e sol". As quatro décadas seguintes passaram-se a cobrir guerras, da civil no Líbano, que era a sua base, às muitas que a sucederam, como a do Irão-Iraque ou as dos ataques ao Iraque. Destacou-se como opositor da intervenção de Bush filho em 2003 que derrubou Saddam sob o pretexto de acumular armas de destruição maciça. E é muito crítico de Israel e da Arábia Saudita, mas numa coluna de opinião em que descrevia a guerra da Síria como sendo de "mentiras e hipocrisias"denunciava o silêncio do Hezbollah libanês perante os assassínios e violações pelo exército de Assad e milícias afins.

Fluente em árabe, o que lhe ajudou a ser um dos raros a entrevistar Bin Laden, teve nestes anos o privilégio de falar um pouco com toda a gente, de emires a vendedores de chá, de generais a guerrilheiros. A lição que nos fica sempre das suas reportagens, como esta em Aleppo, é que desaparecidos os impérios e os ditadores desaparecem os velhos equilíbrios entre comunidades, etnias e religiões. Mas Fisk também deixa transparecer algum otimismo quando conta que as aldeias xiitas que resistiram e albergaram os sunitas eram abastecidas, quando possível, pelos curdos. Não é obrigatório que na Síria todos queiram matar todos.

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