Génio coreano

Convém não desvalorizar o contributo do paquistanês Abdul Qadeer Khan para o programa nuclear da dinastia Kim - por alguma razão ficou conhecido como o "padrinho da bomba norte-coreana", tanta informação terá vendido a Pyongyang no final dos anos 1990. Mas não se pense também que não existe tecnologia norte-coreana envolvida neste projeto que foi sonhado por Kim Il-sung, fundador do país comunista, concretizado em 2006 pelo filho e herdeiro Kim Jong-il e em vias de ser aperfeiçoado pelo neto Kim Jong-un, pelo menos a acreditar na explosão desta semana, que o jovem líder reclama ter sido o teste a uma bomba H, mais poderosa que as seis a dez ogivas tipo A que se dá por certo já ter.

Ora, é a certeza de que existe tecnologia norte-coreana envolvida que torna ainda mais trágico o rumo deste país criado no final da Segunda Guerra Mundial, após a derrota do Japão. Foi um risco num velho mapa da National Geographic que estipulou que a norte do paralelo 38 a península coreana seria ocupada pelos soviéticos, enquanto a sul a primazia foi dada aos americanos. O resultado são as atuais Coreia do Norte e Coreia do Sul, tão inimigas hoje como quando em 1950-1953 estiveram em guerra.

Olhe-se para uma daquelas fotografias tiradas por satélite que mostram o mundo à noite e na península coreana é evidente o traçado da fronteira. A norte, reina o negro quase absoluto, com a exceção do pontinho de luz que só pode ser a capital, Pyongyang; a sul predomina a luminosidade, mais intensa em Seul e Busan.

No final da colonização japonesa, a Coreia do Norte tinha quase toda a infraestrutura industrial e os recursos minerais; acabada a Guerra da Coreia, destrutiva para ambos os lados, mesmo assim a vantagem na reconstrução parecia estar do lado comunista, vizinho tanto da União Soviética como da China. E, no início da década de 1960, não só o Norte ainda ganhava ao Sul em comparação de nível de vida como a metade capitalista ficava abaixo de várias das nações africanas recém-independentes.

Hoje a Coreia do Norte é pobre, a Coreia do Sul próspera a ponto de ser a 12.ª maior economia mundial e o 15.º país no Índice de Desenvolvimento da ONU. O fosso entre ambas é gigantesco, não comparável a nenhum das outras divisões de países ocorrida durante a Guerra Fria, fossem os Vietnames ou as Alemanhas. Aliás, qualquer ideia de repetir a experiência de reunificação alemã é irrealista. Tirando duas cimeiras, negociações bilaterais raras e alguns emocionantes reencontros de famílias separadas desde a guerra, os contactos entre os coreanos dos dois lados são mínimos. Ou seja, além da diferença económica, que tornaria impagável uma reunificação súbita, também o modo de pensar se afastou nestas sete décadas.

Mas o povo (50 milhões a sul, 25 a norte) não deixa de ser o mesmo. E se os sul-coreanos estão no topo no registo de patentes científicas, lideram o desempenho escolar a nível mundial e têm empresas líderes como a Samsung, a LG ou a Hyundai, isso deve-se, claro, a terem aderido à globalização mas também à tradição confuciana de trabalho árduo e apreço pelo conhecimento. Essa base cultural existe igualmente a norte, ainda que subaproveitada por um regime anacrónico que é incapaz de competir com a democracia pujante que nasceu a sul (e que sucedeu a uma ditadura militar pró-americana) e que prefere resguardar-se (e à bizarra dinastia comunista) num poderio nuclear que amedronta os vizinhos e serve para alimentar a propaganda interna.

Do pouco que se sabe da Coreia do Norte hoje, é evidente que os tempos de fome dos anos 1990 passaram e que o regime deixou proliferar explorações agrícolas privadas e mercados informais de modo a salvar-se do caos. Há novos prédios em Pyongyang, rede de telemóveis, anúncios a carros e até, notam alguns visitantes habituais, a roupa das pessoas é melhor. Mas imagine-se o que seria aquele país (a Coreia do Norte ou a Coreia reunificada) se todos os cientistas que investem na construção de bombas nucleares se dedicassem a produzir tecnologia que melhorasse a vida das pessoas.

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