Americanos e britânicos. Especiais, até nus

Washington, agosto de 1823, conversa entre John Quincy Adams, chefe da Diplomacia dos Estados Unidos, e Stratford Canning, embaixador britânico, sobre as pretensões do Reino Unido na América do Norte: "Vocês reivindicam a Índia; vocês reivindicam África; vocês reivindicam..." - "talvez", interrompe Canning, "um pedaço da Lua". "Não", replica Adams, notando que nunca ouviu tal, mas que se os britânicos o fizessem teria tão pouco sentido como insistirem em ficar com o rio Columbia. Hoje o Columbia até faz fronteira entre os estados de Washington e Oregon, mas na época parecia destinado a ser todo ele parte do Canadá britânico.

Washington, dezembro de 1941, encontro entre Franklin Roosevelt, presidente dos Estados Unidos, e Winston Churchill, primeiro-ministro britânico, semanas depois do ataque japonês a Pearl Harbor: Roosevelt faz avançar a cadeira de rodas para o quarto de Churchill, hóspede de Natal na Casa Branca. E, vindo a discutir a conduta da guerra, encontra Churchill nu, acabado de sair do banho. Perante a surpresa do americano, a resposta do britânico é que "o primeiro-ministro da Grã-Bretanha não tem nada a esconder ao presidente dos Estados Unidos". Menos de quatro anos depois, os Aliados derrotavam o Japão e a Alemanha, com a ironia de Roosevelt morrer pouco antes e Churchill perder as eleições.

Estes dois momentos anedóticos definem bem as grandes fases da relação entre americanos e britânicos, velha de mais de dois séculos, que Barack Obama, ontem de visita a Londres, descreveu uma vez mais como "especial".

Ora, especial em sentido geral foi desde o primeiro momento, quando as 13 colónias da América do Norte se revoltaram contra Jorge III. Declarada em 1776 e confirmada em 1783, a independência dos Estados Unidos criou a primeira nação nas Américas mas esteve longe de acabar com a supremacia do império britânico. Tanto que em 1812-1814, o novo país e a velha metrópole travaram uma nova guerra, desta vez com o exército britânico a desfilar em Washington, incendiando os edifícios oficiais pelo caminho, incluindo a Casa Branca. Uma vitória em Nova Orleães, já depois de assinada a paz, salvou a honra dos Estados Unidos mas não impediu que se percebesse que a relação de forças ainda era favorável ao lado europeu do mundo anglo-saxónico. E se Adams, que instigará pouco depois James Monroe a proclamar que a América é para os americanos, mostra determinação frente a Canning, a verdade é que a famosa advertência para que a Santa Aliança não ajudasse a Espanha a recuperar as colónias só funcionou porque era esse também o interesse britânico e a sua marinha sem rival na época.

Mas especial no bom sentido, a relação só se tornou no século XX, quando nas duas Guerras Mundiais, contra uma opinião pública isolacionista, os presidentes Woodrow Wilson e Roosevelt enviaram tropas, ajudando a Grã-Bretanha a derrotar a Alemanha. Tratou-se também em 1945 de uma passagem de testemunho, pois à Grã--Bretanha como potência dominante sucederam os Estados Unidos, posição que mantêm até hoje, apesar dos desafios sucessivos da União Soviética e, na atualidade, da China. E seja através da NATO durante a Guerra Fria, seja pela sintonia nas votações na ONU, é evidente que a aliança é sólida como mais nenhuma no planeta e que não depende de quem a encarna, mesmo que a amizade de Ronald Reagan com Margaret Thatcher ou mesmo a de George W. Bush com Tony Blair lhe dessem um colorido especial.

Obama fez bem em esclarecer que a relação especial com os Estados Unidos é um mau argumento para a saída do Reino Unido da União Europeia. E fez também bem em defender que a relação especial entre os dois lados do Atântico tem cada vez mais de ser entre os Estados Unidos e a União Europeia, e que para isso é essencial o Reino Unido estar lá. Não se trata de debater a Lua, só de pôr a nu as óbvias fragilidades do brexit.

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