Desespero turco

A Turquia apostou forte na Síria e está a perder. A perder em todos os sentidos, o que é dramático para os turcos, péssimo para os equilíbrios no Médio Oriente e desanimador para quem, de longe, olha para esse país a cavalo entre a Europa e a Ásia como um exemplo para o mundo muçulmano e não só.

De quem é a responsabilidade dos problemas atuais da Turquia? Sobretudo de Recep Erdogan, o presidente que já foi primeiro-ministro e que, confortado por sucessivas vitórias eleitorais e generosos aplausos de fora, acreditou ser um homem providencial. O problema é que a Primavera Árabe, que a partir de finais de 2010 parecia oferecer um palco para a Turquia se reafirmar como grande potência e modelo regional, se transformou num "Fracasso de Ancara", como intitulam Jonathan Schanzer e Merve Tahiroglu um artigo publicado na edição de janeiro da Foreign Affairs. E esse fracasso é tremendo hoje na Síria, onde os interesses da Turquia chocam com quase o de todos os outros intervenientes, seja o regime de Bashar al-Assad e dos seus aliados iranianos e russos, sejam as milícias curdas armadas pelos Estados Unidos, seja o próprio Estado Islâmico, como se comprova pelos atentados que fizeram nos últimos meses em Ancara e em Istambul.

No poder na Turquia desde 2002, e com um currículo de impressionante sucesso económico, de inicial respeito pelas minorias e de separação de águas entre o governo e os militares, os islamoconservadores do AKP, o partido de Erdogan, viram-se semi-imitados na Tunísia, na Líbia e no Egito, países onde a Irmandade Muçulmana se apoderou num primeiro momento do poder. Para Ancara, foi uma bela oportunidade para ultrapassar o fosso histórico entre turcos e árabes, vindo da Primeira Guerra Mundial, e criar uma diplomacia neo-otomana, que trouxesse benefícios tanto políticos como económicos. Ora, passados cinco anos, como notam Schanzer e Tahiroglu, o resultado é deprimente do ponto de vista de Ancara. Não só viu os aliados perderem terreno, como no caso do Egito as relações oficiais foram cortadas desde o derrube de Mohammed Morsi pelos militares.

Na Síria, foi natural o corte de Erdogan com Assad em 2011, dada a brutal repressão dos manifestantes a favor de uma liberalização. Mas o apoio turco a grupos rebeldes moderados, que contavam também com financiamento saudita, foi incapaz de os tornar vencedores da guerra civil. E, como nota Gönul Tol, na CNN, a atual ofensiva do exército sírio com apoio russo sobre Aleppo ameaça acabar com a linha de abastecimento da Turquia aos seus protegidos. Ao mesmo tempo, milhares de refugiados procuram entrar no país, onde já estão dois milhões de sírios, número que desafia a capacidade de integração da Turquia, mesmo que a UE prometa fundos.

A situação é tão desesperante para os interesses turcos, que Kadri Gursel, no Al-Monitor, fala da tentação de Erdogan de invadir a Síria. Depois de um avião russo abatido, novos choques com Moscovo não são aconselháveis. E no terreno, as milícias curdas, que Ancara vê como uma marioneta dos separatistas do PKK, avançam contra o Estado Islâmico sob o olhar protetor dos Estados Unidos, pelo que desafiar o aliado americano não é sensato.

Erdogan ambiciona ser presidente em 2023, centenário da República criada por Mustafa Kemal sobre as ruínas do Império Otomano. Mas mais importante do que as ambições pessoais é o prometido sucesso do país. Admitir perdas na Síria, concentrar esforços na derrota dos jihadistas e na solução para a questão curda, é melhor do que insistir numa estratégia que tem feito ricochete. Mais do que cobrar, a UE e os Estados Unidos têm obrigação - e interesse - de ajudar a Turquia a salvar a face.

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