Defender Istambul

Se há prova de que a Turquia é um país europeu tanto como é um país do Médio Oriente, essa chama-se Istambul. E não é só por causa da geografia, que espalha a cidade pelas duas margens do Bósforo, o que quer dizer Europa e Ásia; nem sequer pela longa história, mesmo que já se tenha chamado Constantinopla e sido capital do Império Romano; é mesmo pelo cosmopolitismo das gentes, pelos mil e um pormenores nas ruas. Recordo-me de visitar Istambul com a expectativa de ver a Hagia Sophia, a Mesquita Azul, o Topkapi e o bazar e descobrir que a essas maravilhas do passado se somavam as livrarias na Rua Istiklal, a loja de profiteroles, o café de charme ou o cinema onde passavam filmes ocidentais (creio que era um da saga Harry Potter). Não admira que seja tão visitada, tão sonhada pelos turistas.

Constantino, o imperador romano que fez do cristianismo religião oficial, escolheu o sítio da antiga Bizâncio para a nova capital, fascinado pelas colinas e pelo mar (o Mármara, o Bósforo e o Corno de Ouro); os Cruzados, deslumbrados pela riqueza da cidade, esqueceram-se de que era terra cristã e pilharam-na; os otomanos conquistaram-na em 1453, com os exércitos turcos a conseguirem erguer os estandartes islâmicos onde os árabes, séculos antes, tinham tentado mas fracassado. Mas se de início Mehmet II, o Conquistador, deu rédea livre aos soldados para o saque, depressa, como sultão, ordenou que a cidade fosse repovoada e não apenas por muçulmanos, o que explica que ainda durante a Primeira Guerra Mundial fossem por lá abundantes famílias gregas e arménias; já Mustafa Kemal Atatürk, apesar de ter eleito Ancara como capital da nova república, morreu no Dolmabahçe, o palácio estilo Versalhes que os últimos sultões mandaram construir para substituir o Topkapi.

Atatürk. Sim, Atatürk, como o nome do aeroporto que foi atacado terça-feira por jihadistas. Estes odeiam a Turquia laica por ele criada em 1923, detestam o cosmopolitismo de Istambul, chantageiam com bombas os atuais governantes islamo-conservadores de Ancara para que não façam justiça à aliança com os Estados Unidos, nem se reaproximem da União Europeia, nem normalizem as relações com Israel, nem façam as pazes com a Rússia.

Mataram mais de 40 pessoas, quase metade estrangeiros. E como muitas vezes acontece, a maioria das vítimas são muçulmanos, mas o Estado Islâmico nem reivindicou o atentado. Recep Erdogan, homem forte da Turquia há mais de uma década, hoje como presidente antes como primeiro-ministro, cometeu muitos erros com a sua diplomacia neo-otomana, com a vontade de inspirar a Primavera Árabe, sobretudo na Síria. Também se lhe pode criticar o crescente autoritarismo, confortado pelo êxito económico e pelas sucessivas vitórias eleitorais. Mas percebe-se que algo está a mudar.

Nas vésperas do atentado, a Turquia anunciara a normalização com Israel. Foi também conhecido o pedido de desculpas a Moscovo pelo avião militar derrubado em 2015, o que vai trazer de volta os turistas russos. E agora abriu-se mais um capítulo nas conversações com a União Europeia, com o acordo sobre refugiados (são mais de dois milhões na Turquia) a deixar em aberto o fim dos vistos para os turcos. Adivinha-se que o Estado Islâmico, por muito que Erdogan esteja preocupado com a persistência de Bashar al-Assad ou com o separatismo curdo, vai passar a ser um alvo a abater pela Turquia. Depois do massacre no aeroporto só pode ser assim. E temos de ser solidários. Em defesa da Turquia, que se quer nação muçulmana e democrática e é parceira na NATO. E em defesa do cosmopolitismo de Istambul.

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