Com medo de Moscovo, mas fora da NATO

Simulações sobre os efeitos de uma invasão relâmpago russa no Báltico, revelação de um exercício de ataque nuclear à Suécia, análises sobre as vantagens da adesão de suecos e finlandeses à NATO. Tem sido enorme a pressão para que os dois países escandinavos neutrais esqueçam o tradicional não-alinhamento e peçam a integração na Aliança Atlântica fundada em 1949. E as próprias opiniões públicas começam a mostrar uma inclinação para a adesão que surpreende, mesmo que a própria Rússia de Vladimir Putin ajude e muito ao espírito de Guerra Fria com a anexação da Crimeia, o apoio aos separatistas da Ucrânia e os voos militares tão longe como as Ilhas Britânicas ou a costa portuguesa.

Está assim para breve mais um alargamento da NATO, tornando o Báltico um mar controlado pela aliança liderada pelos Estados Unidos? Em princípio não, e esta é uma conclusão que se pode tirar de um artigo conjunto dos primeiros-ministros sueco e finlandês publicado no início do ano em jornais de ambos os países. Em resumo, o que dizem Stefan Löfven e Juha Sipilä é que a atual parceria estratégica tanto da Suécia como da Finlândia com a NATO é já uma garantia contra terceiros. E acrescentam que apesar de serem evidentes novas tensões na região uma adesão dos seus países à NATO não contribuiria nada para o desanuviamento com a Rússia.

Na realidade, por muito forte que seja, a atual cooperação militar entre suecos e finlandeses e a NATO não permite a aplicação do artigo 5.º do Tratado de Washington em caso de ataque a um desses dois países, logo não existe obrigação imediata de vir em seu socorro. Em compensação, também suecos e finlandeses não estão obrigados a ser solidários com um membro da NATO que sofra uma agressão. Assim, de certo modo é uma situação dúbia e tal tem sido aceitável para os russos.

O curioso é que a ameaça russa no Báltico não é sentida por todos da mesma forma. Polónia (que acolhe a próxima cimeira da NATO) e Estónia estão na primeira linha dos países que se sentem ameaçados e por isso têm pedido colocação de tropas da Aliança nos seus territórios e já deram um sinal claro de compromisso cumprindo a fasquia dos 2% do PIB em despesas militares. Mas letões e lituanos estão longe de fazer o mesmo investimento, mesmo que também alinhem pela retórica da ameaça e tenham aumentado os gastos. Quanto a suecos e finlandeses, olhando-se para a evolução das suas despesas em defesa, de 2011 para 2014, aumentou de 1,1% do PIB para 1,2% e reduziu de 1,4% para 1,3%, respetivamente. Os dados para 2015 não são ainda conhecidos a fundo mas poderão mostrar maior investimento.

Há uma espécie de compromisso entre Estocolmo e Helsínquia de que uma adesão à NATO teria de ser simultânea. Ora isso dificulta eventuais planos suecos, pois sabe-se que é em relação aos finlandeses que as objeções russas são maiores. Em causa está o valor estratégico da Finlândia, cuja fronteira é próxima de São Petersburgo, segunda cidade russa, e de Murmansk, base da esquadra russa do Norte, que conta com submarinos equipados com mísseis nucleares. Há também a questão simbólica, pois os russos ainda se lembrarão da resistência finlandesa na Guerra de Inverno (1939--1940), enquanto o último conflito com os suecos foi exatamente pela tutela da Finlândia há dois séculos.

Entre a exibição exagerada de músculo da Rússia (equilibrada com os Estados Unidos no poderio nuclear mas com um orçamento militar geral seis vezes mais baixo) e a histeria no Báltico (um submarino avistado nas imediações de Estocolmo mas nunca encontrado, depois um submarino com letras em cirílico descoberto no fundo do mar mas do tempo do czar) um meio-termo terá de ser encontrado na região. Parece ser esse o significado da declaração dos primeiros-ministros Löfven e Sipilä, o que não os impede, porém, de mandar estudar os custos e benefícios de uma entrada na NATO, óbvia mensagem a Putin.

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