Cazaquistão, vítima colateral do humor de Sasha Baron Cohen

Os Estados Unidos e os aspetos mais reacionários da sociedade americana são os alvos de Sasha Baron Cohen nos seus filmes Borat. Mas tanto agora na sequela como há uma década e meia quando se estreou o primeiro filme com o suposto jornalista cazaque há uma vítima colateral: o Cazaquistão. Sim, o país de Borat existe mesmo, é aliás o nono maior do mundo, e nele se pode encontrar tanto a base espacial de Baikonur como as montanhas junto à Almaty de onde são originárias as maçãs.

É uma ex-república soviética, com apenas 30 anos como país independente, mas a sua história remonta a tempos bem mais antigos e Gengis Khan, herói dos mongóis, é também reivindicado como antepassado da nação cazaque. Um dos orgulhos do Cazaquistão é ter sido nas suas terras que o cavalo primeiro foi domesticado, provavelmente esses pequenos cavalos que, montados por hábeis archeiros, permitiram há quase mil anos o maior de todos os impérios terrestres.

Visitei o Cazaquistão há pouco mais de um ano. Em Nursultan vi a modernidade ambicionada pelos líderes do país, como essa imensa iurta concebida pelo arquiteto britânico Norman Foster onde cabe um centro comercial. A antiga Astana, rebatizada com o nome do pai da independência, pode não ser, tal como qualquer capital, o espelho absoluto de um país 30 vezes maior do que Portugal e que se estende de um lado e do outro dos Urais, mas o que lá vi foi uma sociedade evoluída, respeitadora dos direitos da mulher e tolerante com os outros, como é regra nos povos túrquicos antes e depois da conversão ao islão. Também vi coexistência entre a maioria étnica cazaque e as mais de uma centena de nacionalidades que se espalham pelo território, desde os descendentes de russos que serviam os exércitos do czar até aos coreanos deportados para ali por Estaline.

Borat 2 faz rir. E Sasha Baron Cohen é um génio. A sua crítica à América é tremenda. E como ator vale também muito, basta pensar na sua interpretação de um espião israelita que chega a vice-ministro da Síria (uma história verídica). Mas se me puser na pele de um cazaque, e conheço alguns, tenho de perceber bem o seu desconforto. Não são misóginos nem xenófobos como Borat 1 e 2 fazem pensar, muito menos antissemitas, nem sequer são eles que aparecem na aldeia natal do jornalista, na verdade roma, ciganos de leste, filmados na Roménia.

Sobretudo no que diz respeito às mulheres - o jornalista Borat diz que não podem entrar num carro, mas no fim admite que gosta mais da filha do que dos filhos -, oito delas ganharam medalhas olímpicas nos Jogos do Rio de Janeiro, só duas menos do que os atletas masculinos do país.

Borat teria conseguido o mesmo resultado, estou certo, se tivesse vindo do Absurdistão, seguindo a estratégia de Hergé quando inventou para as aventuras do seu Tintin uma Sildávia. E não teria feito uma vítima colateral do tamanho de um povo de 18 milhões de pessoas, entre os 50 países mais desenvolvidos do mundo, graças ao petróleo e ao gás e a uma boa gestão dos recursos.

E não se pode dizer que os cazaques não têm feito um esforço para lidar com a fama que os filmes do comediante britânico lhes trouxe. Se alguns apelam ao boicote, outros contra-atacam com vídeos em que Borat é substituído por um jornalista a sério que mostra o verdadeiro Cazaquistão. Até foi convidado a visitar o país. E houve um ministro que admitiu que a curiosidade pelo Cazaquistão aumentou e isso refletiu-se no número de turistas. Mas é difícil aceitar que, como neste último filme, uma crítica feroz à América trumpiana se faça acompanhar uma vez mais por umas gargalhadas à custa de outros. Sim, é a liberdade criativa. Sim, mas os alvos, sobretudo os que não eram suposto ser, não têm de ficar felizes. E o pior é que quanto mais as autoridades protestarem, maior notoriedade ganha o filme. O que é contraproducente.

Conheci no Cazaquistão uma menina, filha de um português e de uma cazaque. Está a ser criada nas duas culturas, e fala ambas as línguas. Sei que crescerá orgulhosa das raízes portuguesas, do povo do mar, como das raízes cazaques, esse povo da estepe. Também por ela espero que quem se divirta a ver Borat, tenha curiosidade por ler Abai, o grande poeta cazaque cujos 175 anos do nascimento se celebram em 2020, ou ouvir Dimash, cantor de hoje, uma voz cazaque que inunda o YouTube. E quando acabar esta pandemia ouse viajar à terra que fica mesmo no meio da antiga Rota da Seda, entre a China e a Rússia. Um museu em Nursultan exibe o Homem de Ouro, extraordinário achado arqueológico.

É um grande país, o Cazaquistão. Em todos os sentidos e um deles muito especial para quem já esteve, como eu, em Hiroxima e Nagasáqui, - liderado hoje por Kassym-Jomart Tokayev, eleito em 2019 depois da resignação de Nazarbayev, o Cazaquistão lidera o esforço internacional para eliminar as armas nucleares, depois de ter desistido do seu arsenal da era soviética e tendo no seu território o local onde a URSS testava as bombas.

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