América sobreviveria a Trump presidente

Harry Truman era um campónio do Missouri sem curso superior nem mundo, John Kennedy uma marioneta do Papa, Jimmy Carter um simples plantador de amendoins, Ronald Reagan um ator de segunda categoria e George W. Bush só entrou em Yale graças à cláusula que dá acesso aos filhos de antigos alunos. Pelo menos foi o que os seus rivais repetiram até à exaustão, prevendo o desastre assim que assumissem a presidência. E, no entanto, a América sobreviveu a todos estes inquilinos da Casa Branca. Alguns, admita-se, até ficaram bem nos livros de história.

Xenófobo, misógino, egoísta, incoerente, impreparado e inculto. Já se chamou tudo isto a Donald Trump nos últimos meses e com certa razão, tantos disparates (comprováveis) ele diz. Mesmo assim arrasou nas primárias republicanas e agora até aparece em algumas sondagens a derrotar Hillary Clinton nas eleições presidenciais agendadas para 8 de novembro. E então como seria se o magnata desbocado sucedesse mesmo a Barack Obama?

Seria péssimo. Mas não tão mau como se anda a dizer, quase de certeza. Olhe-se para o passado de Trump e, por exemplo, a xenofobia e o racismo não jogam bem com um homem que das três vezes que casou duas foi com estrangeiras ou que, como se percebeu ontem, até foi grande amigo de Muhammad Ali. E não se espere um campeão do conservadorismo num ex-democrata que toda a vida se identificou com os valores liberais de Nova Iorque.

Críticas exageradas são comuns na política americana, habituada ao vale tudo. Há pouco, alguém relembrou que na campanha de 1800 Thomas Jefferson afirmou que o presidente John Adams era hermafrodita. E voltando aos casos referidos no início desta crónica, afinal Truman em jovem combateu na Europa e como presidente foi capaz de pôr fim à Segunda Guerra Mundial e depois fazer frente a Estaline mundo fora, o católico Kennedy nunca restabeleceu sequer as relações diplomáticas com o Vaticano, Carter foi na tropa engenheiro de submarinos, Reagan fez uma importante escala como governador da Califórnia no caminho entre Hollywood e a Casa Branca e como presidente deu o golpe de misericórdia na União Soviética e Bush filho saiu de Yale para Harvard, onde fez um MBA.

De qualquer forma, difamado até ao exagero ou não, Trump presidente nunca teria carta branca. O Congresso estaria lá para limitá-lo, o Supremo Tribunal também e igualmente um exército de milhões de servidores públicos, como relembrou no sábado o The New York Times. Mas como o risco não vale a pena, ainda bem que as sondagens voltam a mostrar o favoritismo da democrata Hillary. A América ficará mais bem servida com ela na presidência, creio que o resto do mundo também.

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