Uma questão de educação

Há um filme de Jean-Luc Godard em que, numa sala de cinema, um rapaz, atraído pelas imagens de uma mulher numa banheira, corre para o ecrã, tentando tocá-la... Fazendo sociologia de bolso, apetece dizer que se trata de uma encenação dessa vertigem do nosso século XXI em que a proliferação de ecrãs se tornou um dado visceral do quotidiano. Sê-lo-á também, sem dúvida. Em qualquer caso, o cinema de Godard rege-se por outro calendário: a cena descrita está no filme Os Carabineiros, lançado em 1963.

As novas sessões especiais de filmes "antigos" têm o imenso mérito de relançar memórias vitais da cinefilia. O certo é que há muito foi dizimada

a tribo de espectadores que mantinha uma relação regular com as maravilhas do ecrã da sala escura (de que a personagem de Godard constitui a ilustração histérica). Não é, entenda-se, uma questão de "mérito" ou "inteligência" das pessoas que veem filmes. É, isso sim, uma questão básica de educação.

De que falamos quando falamos de educação para o cinema? Falamos exatamente do contrário dos valores dominantes no nosso audiovisual. Só mesmo por ingénuo voluntarismo se acreditará que o poder esmagador das telenovelas (há 40 anos em horário nobre, "abastecendo" a esmagadora maioria do povo português) gera algum público com memória. Observe-se,

a propósito, o destino do interessante filme brasileiro Aquarius, com Sonia Braga (precisamente a lendária atriz de Gabriela, primeira novela lançada em Portugal): no primeiro fim de semana de exibição, o número de portugueses que compraram um bilhete para a ver foi de 1843; no mesmo período, A Bela e o Monstro (magnífico, não é isso que está em causa) chegou aos 120 mil. Que venham mais sessões especiais! Mas quem quer repensar o mercado e a sua cultura económica?

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